Mostra “Preto Real” reúne 20 retratos de jovens da periferia de São Luís e fica em cartaz até 10 de agosto
A Galeria Dila, no Convento das Mercês, recebe desde o último dia 30 de julho a exposição “Preto Real”, que propõe uma reconstrução da autoestima de crianças e jovens afrodescendentes ao caracterizá-los como herdeiros dos impérios africanos pré-coloniais de Kush, Mali, Axum e Songai. A mostra, aberta ao público, permanece em cartaz até 10 de agosto.
Na noite de quinta-feira (30), uma avant-première reuniu convidados, imprensa e apoiadores para a conferência das 20 imagens de alto impacto estético que compõem o acervo. A iniciativa é realizada pela IDÉ Productions e Lut Filmes e resulta de uma intervenção artístico-pedagógica que combinou palestras sobre a história dos impérios africanos, oficinas de fotografia instrumental com dispositivos móveis e ensaios fotográficos com crianças das comunidades Cajueiro e Mãe Chica, na área periurbana de São Luís.
De acordo com a curadora e coordenadora do projeto, Patrícia Fonseca, a proposta não se trata de um exercício de fantasia, mas de uma restituição. Ela afirmou que a realeza é apresentada como uma herança genética e cultural que precede o trauma da escravização. Segundo a curadora, ao educar o olhar da criança sobre a complexidade e a riqueza de suas origens, altera-se radicalmente sua postura diante do mundo. Ela destacou que a fotografia atua como um espelho de autorreconhecimento e que a beleza negra, quando reivindicada pelo próprio sujeito, torna-se ferramenta de emancipação.
As imagens, assinadas pelo fotógrafo e geógrafo Ribamar Carvalho, retratam os participantes vestidos com indumentárias e símbolos que remetem às dinastias africanas. Carvalho define seu olhar como um ato de devolução e afirma que sua fotografia sempre buscou revelar subjetividades, mas que no projeto encontrou um sentido ainda mais profundo. Ele explicou que cada clique foi um ato de devolver a essas crianças a imagem de sua própria grandeza e à história o protagonismo que lhe foi roubado. Para o fotógrafo, a luz e a sombra, o concreto e o sonho se encontram em cada retrato para afirmar que a beleza negra é soberana.
A equipe da exposição conta ainda com Nicole Fonseca (pesquisa e design visual), Quilana Viégas (produção), Anna Roberta (maquiagem), Pedro Oliveira (sonoplastia) e Christian Moreira (produção executiva). As empresas Abreu Tecidos e Mysg Corretora são apoiadoras da iniciativa.
O produtor executivo e diretor da IDÉ Productions, Christian Moreira, avaliou que a mostra vai além do registro estético e se configura como um projeto de reparação. Ele destacou que a iniciativa devolve à infância negra o direito de se ver em espaços de relevância, poder e nobreza. Moreira afirmou que a emoção das crianças e de suas famílias na abertura confirmou que a equipe está no caminho certo e que a exposição é apenas a ponta de um processo que continua reverberando na vida de cada participante.
Os resultados simbólicos já são perceptíveis, segundo a organização. As crianças envolvidas passam a se enxergar como herdeiras de reinos, e não de faltas. O público é confrontado com a construção colonial da beleza, e o modelo do projeto mostra-se replicável em escolas, centros culturais e museus.
A exposição “Preto Real” pode ser visitada na Galeria Dila, Convento das Mercês, até 10 de agosto, com funcionamento de terça a sábado das 9h às 17h e aos domingos das 9h às 13h. A entrada é gratuita para todos os públicos.
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