Endividamento americano mais que dobrou em menos de uma década; custo dos juros já supera gastos com saúde e defesa
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos informou nesta quarta-feira (20) que a dívida pública total do país ultrapassou a marca inédita de US$ 40 trilhões. O dado, referente ao saldo de terça-feira, acionou novos alarmes entre especialistas em contas públicas sobre a sustentabilidade fiscal da maior economia do mundo.
De acordo com o balanço diário da pasta, a dívida total em circulação somava US$ 40,047 trilhões. Desse montante, US$ 32,266 trilhões correspondem a títulos do Tesouro detidos pelo público, enquanto US$ 7,782 trilhões referem-se à dívida intragovernamental.
O endividamento federal americano mais que dobrou nos últimos nove anos. Em janeiro de 2017, quando o presidente Donald Trump tomou posse pela primeira vez, o estoque da dívida era de US$ 19,95 trilhões. Cerca de um terço da alta acumulada ocorreu durante os dois anos de gastos emergenciais para financiar a resposta à pandemia da Covid-19, sob as gestões de Trump e do ex-presidente Joe Biden.
O restante do crescimento é atribuído a escolhas de política fiscal adotadas por ambos os mandatários, combinadas a desequilíbrios estruturais entre receitas e despesas. Grupos de fiscalização orçamentária já vinham prevendo a ultrapassagem do limite nas últimas semanas e emitiram advertências de que uma crise de dívida em larga escala pode se materializar caso o Congresso não adote medidas para aumentar a arrecadação, cortar gastos ou promover uma combinação das duas frentes.
Maya MacGuineas, presidente do Comitê para um Orçamento Federal Responsável, organização apartidária, afirmou que a dívida não é um número abstrato e tem efeitos concretos sobre a economia e o bolso dos cidadãos. Em comunicado divulgado após a publicação dos dados do Tesouro, ela alertou que o endividamento contribui para agravar a inflação, compromete outras prioridades orçamentárias e aumenta a vulnerabilidade a emergências internas e turbulências externas.
MacGuineas destacou ainda que a marca de US$ 40 trilhões foi atingida menos de cinco meses depois de a dívida ter chegado a US$ 39 trilhões. Ela observou que o valor quadruplicou em menos de 20 anos, considerando que o país levou até 1981 para alcançar o primeiro trilhão.
O mercado financeiro já sinaliza cautela entre os credores globais. Os rendimentos dos títulos do Tesouro de longo prazo atingiram na terça-feira seus níveis mais altos em quase duas décadas, à medida que investidores exigiram maior remuneração diante da forte emissão de papéis do governo americano. O prêmio de prazo dos títulos de 10 anos, que mede o risco percebido em manter esses ativos por uma década, subiu nesta semana ao maior patamar em mais de doze anos.
Para conter a pressão sobre os rendimentos, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou nesta quarta-feira a duplicação do volume de recompra de títulos com vencimento entre 10 e 30 anos, que passará a ser de pelo menos US$ 4 bilhões por operação.
Paralelamente, a demanda por títulos da dívida americana por parte de investidores estrangeiros, que detêm quase um terço de todo o estoque, vem diminuindo ao longo do último ano. Em relatório divulgado na terça-feira, John Canavan, analista-chefe de mercados financeiros da Oxford Economics, alertou que esse movimento tende a deixar mais papéis nas mãos de compradores sensíveis a preços, o que pode amplificar a volatilidade do mercado.
O cenário fiscal segue pressionado. Na semana passada, o Tesouro registrou o quarto maior déficit mensal da história do país, de US$ 432 bilhões em julho. Os reembolsos de tarifas tornaram as receitas alfandegárias negativas pelo terceiro mês consecutivo, enquanto os gastos com Previdência Social e Medicare continuam em trajetória crescente.
O déficit acumulado nos primeiros dez meses do ano fiscal de 2026 já superou o total registrado em todo o ano fiscal de 2025, restando ainda dois meses para o encerramento do período.
Trump tem ignorado em grande parte as vozes favoráveis ao ajuste fiscal dentro de seu próprio partido e manteve uma postura de gastos elevados ao longo de seus dois mandatos. Durante seu primeiro governo, a dívida pública aumentou em US$ 7,8 trilhões, sendo que mais da metade desse montante foi acumulada nos últimos nove meses, em razão das despesas com a pandemia.
Desde que reassumiu o cargo, em janeiro de 2025, o endividamento cresceu em US$ 3,8 trilhões. Assim, a soma dos aumentos em seus dois mandatos chega a US$ 11,6 trilhões. Já o governo Biden registrou alta de US$ 8,4 trilhões na dívida, impulsionada não apenas pelos gastos com a recuperação da covid-19, mas também por investimentos em infraestrutura, subsídios para energia limpa e outras prioridades da agenda democrata.
Estimativas do Comitê para um Orçamento Federal Responsável indicam que as escolhas políticas de ambos os presidentes elevaram a trajetória da dívida acima do que seria previsto pelas leis de gastos vigentes no início de cada mandato. O Escritório de Orçamento do Congresso, órgão técnico não partidário, projeta que o pacote legislativo do segundo mandato de Trump, a Lei One Big Beautiful Bill, deve acrescentar mais US$ 4,7 trilhões à dívida.
Embora Trump tenha caracterizado seu segundo mandato como uma gestão focada na redução de custos, com cortes iniciais de empregos em órgãos federais determinados pelo Departamento de Eficiência Governamental, grande parte das reduções de gastos atingiu os programas discricionários, que representam a menor fatia do orçamento federal.
Os Estados Unidos gastam cerca de US$ 7 trilhões por ano. Desse total, 60% são destinados a programas obrigatórios, como Previdência Social, Medicare, Medicaid e assistência a veteranos, cujos valores geralmente são corrigidos pela inflação. O pagamento de juros da dívida consome US$ 1,1 trilhão, montante que cresce na mesma proporção do endividamento e da elevação das taxas de juros.
No ano fiscal de 2025, os custos com o serviço da dívida superaram pela primeira vez o orçamento do Pentágono. Nos primeiros dez meses do ano fiscal de 2026, os juros já ultrapassaram os gastos com o Medicare, tornando-se a segunda maior despesa federal, atrás apenas da Previdência Social.
O envelhecimento da geração baby boom segue pressionando os fundos da Seguridade Social e do Medicare, enquanto as receitas provenientes de impostos sobre a folha de pagamento e sobre a renda seguem insuficientes para cobrir o ritmo de despesas do governo federal.
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