Estado registra alta de 325% nas apreensões em um ano; medicamentos sem prescrição são vendidos em redes sociais e grupos de mensagens
O Maranhão enfrenta uma escalada preocupante no comércio ilegal de canetas e frascos emagrecedores. Dados da Polícia Federal indicam que as apreensões desses produtos no estado saltaram de 31 unidades em todo o ano de 2025 para 132 apenas no primeiro semestre de 2026, o que representa um crescimento de 325,8% em relação ao total do ano anterior. A informação foi confirmada ao todo pela corporação.
O avanço da fiscalização, no entanto, revela apenas uma fração do que circula às margens da lei. O submundo da automedicação de alto custo se alimenta da pressão estética e da promessa de resultados rápidos, impulsionados por perfis em redes sociais e aplicativos de mensagem. É nesse ambiente que jovens como Maria V. K. S., 23 anos, especialista em marketing digital, encontram o atalho para driblar a burocracia dos consultórios.
Determinada a emagrecer, mas sem paciência para enfrentar filas e a espera por uma prescrição adequada, ela adquiriu as canetas diretamente com atravessadores. O custo emocional, porém, é diário. Toda vez que prepara a agulha, o coração acelera. A dúvida sobre a procedência do produto e o medo de reações adversas, como pancreatite e insuficiência renal, são companheiros constantes. Ainda assim, a jovem admite que a vontade de ver o ponteiro da balança descer é mais forte e, voluntariamente, opta por não fazer exames enquanto utiliza os medicamentos.
O cenário de irregularidades também foi flagrado em operações recentes. Em fevereiro, a Receita Federal apreendeu no terminal de cargas do Aeroporto de São Luís 274 unidades de medicamentos, entre 240 frascos de Tirzepatida, 22 canetas de Mounjaro e 12 de Retatrutida, carga avaliada em cerca de R$ 264 mil. Em março, a Polícia Federal interceptou um passageiro vindo de Foz do Iguaçu que transportava canetas e frascos de tirzepatida sem autorização sanitária. Já em abril, a Polícia Civil deflagrou a Operação Agonista, voltada ao combate à comercialização de medicamentos irregulares e à lavagem de dinheiro.
Para o professor do curso de Farmácia da Estácio e doutor em Ciências da Saúde, Hiran Reis Sousa, o uso indiscriminado dessas substâncias é uma roleta-russa. Ele explica que os medicamentos baseados em agonistas do receptor GLP-1 ou de ação dupla são terapias complexas, que atuam em diversos sistemas do organismo e exigem avaliação criteriosa antes da prescrição. Não se trata de meros cosméticos emagrecedores.
O protocolo recomendado inclui uma bateria de exames laboratoriais que poucos pacientes que recorrem ao mercado clandestino realizam. Glicemia de jejum, hemoglobina glicada, perfil lipídico, testes de função hepática e renal, hemograma completo e dosagem de TSH são etapas obrigatórias para garantir a segurança do tratamento. A ausência desse acompanhamento expõe o usuário a efeitos adversos que vão além das náuseas e tonturas.
Entre as complicações mais graves, o professor cita desidratação, distúrbios eletrolíticos, pancreatite, problemas na vesícula biliar, agravamento de doenças gastrointestinais e, em pacientes diabéticos, episódios de hipoglicemia. A perda de massa muscular e óssea, além do temido efeito rebote, também são consequências comuns quando o medicamento é utilizado por pessoas que não se enquadram nos critérios clínicos, como índice de massa corporal igual ou superior a 30 kg/m² ou 27 kg/m² associado a comorbidades.
Hiran Reis ressalta ainda que existem contraindicações absolutas que o mercado ilegal ignora por completo. Gestantes, mulheres em período de amamentação, pessoas com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireóide, síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 ou hipersensibilidade aos componentes do medicamento não podem fazer uso dessas substâncias.
O especialista defende que qualquer tratamento para emagrecimento deve ser individualizado, baseado em evidências científicas e conduzido por equipe multiprofissional, com acompanhamento de médico, nutricionista, farmacêutico e, quando necessário, educador físico e psicólogo. A eficácia e a segurança do paciente, alerta, não podem ser sacrificadas em nome da urgência estética.
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