Inquérito sobre Ágatha e Allan ultrapassa 700 páginas e segue sob sigilo; buscas envolveram Exército, Marinha e cães farejadores, mas paradeiro das crianças permanece ignorado
A comunidade quilombola de São Sebastião dos Pretos, na zona rural de Bacabal, no Maranhão, completa nesta quarta-feira (19) sete meses e 15 dias de um silêncio que se arrasta desde o início de janeiro. Foi na tarde do dia 4 daquele mês que os irmãos Ágatha Isabelly Reis Lago, de 6 anos, e Allan Michael Reis Lago, de 4, saíram para brincar com o primo Anderson Kauã, de 8, e não voltaram. Desde então, nenhuma pista conclusiva apontou o paradeiro das duas crianças.
As primeiras horas após o desaparecimento foram marcadas por uma mobilização que reuniu centenas de pessoas. Moradores, voluntários, bombeiros e policiais percorreram a área de mata próxima à comunidade, onde as crianças teriam entrado após serem orientadas a retornar para casa. Anderson foi encontrado com vida dias depois, mas não soube ou não pôde indicar o destino dos primos.
Com o avanço dos dias, a operação ganhou proporção nacional. Forças do Exército e da Marinha do Brasil se juntaram às equipes de busca. A Marinha empregou mergulhadores, embarcações e equipamentos subaquáticos nas proximidades do Rio Mearim, para onde cães farejadores indicavam ter seguido o odor das crianças. A tecnologia também foi acionada: drones com câmeras térmicas sobrevoaram a região, enquanto a perícia colhia material genético de familiares para futuras comparações. O protocolo Amber Alert foi ativado, espalhando as características dos irmãos em plataformas digitais.
Apesar do esforço concentrado nas primeiras semanas, as buscas aquáticas foram encerradas sem achados que pudessem confirmar a presença de Ágatha e Allan no rio. O rastro dos cães se esgotou na margem, e a investigação passou a se debruçar sobre outras hipóteses. Entre as possibilidades consideradas pelas autoridades estão o extravio na mata, acidente, afogamento e a participação de terceiros. Nenhuma delas, porém, foi confirmada publicamente pela polícia.
Ao longo dos meses, denúncias sobre possíveis avistamentos levaram investigadores a outros estados. Uma informação indicava que duas crianças com características semelhantes estariam em um hotel em Água Azul do Norte, no Pará. A Polícia Civil deslocou equipes ao local, mas a possibilidade foi descartada. Outra denúncia, apontando um hotel na região central de São Paulo, também foi verificada e não prosperou.
As autoridades também precisaram conter uma onda de boatos nas redes sociais. Entre as informações falsas que circularam estava a alegação de que familiares teriam vendido as crianças. A Polícia Civil desmentiu a versão à época e orientou a população a encaminhar qualquer pista apenas pelos canais oficiais.
Atualmente, o inquérito policial corre sob sigilo na 16ª Delegacia Regional de Polícia Civil de Bacabal. Segundo esclarecimento divulgado pela Associação dos Delegados de Polícia Civil do Maranhão (ADEPOL-MA) e pela própria delegacia, o procedimento já ultrapassa 700 páginas, com relatórios, laudos, perícias, depoimentos e pedidos de medidas cautelares. A mais recente diligência formalizada nos autos, conforme as autoridades, é um relatório de missão datado de 13 de agosto de 2026.
O sigilo, justificam os delegados, é mantido para preservar a eficácia das apurações e evitar que estratégias sejam comprometidas pela divulgação prematura de hipóteses. Apenas os investigadores diretamente responsáveis têm acesso integral aos autos. Não há, até o momento, advogado habilitado no processo. As autoridades também esclareceram que a hipótese de as crianças terem sido levadas para outro estado não transfere automaticamente o caso para a Polícia Federal, que segue sob responsabilidade da Polícia Civil e da Justiça Estadual, com possibilidade de cooperação com outras instituições, se necessário.
Para a família de Ágatha e Allan, os dias se sucedem na expectativa de uma informação que possa trazer algum alívio ou, ao menos, um direcionamento. As autoridades reconhecem a angústia dos parentes, mas reiteram que a cautela e a técnica são exigidas para que novas diligências não sejam prejudicadas.
Passados mais de sete meses, o que se tem é um inquérito robusto, mas ainda sem uma conclusão. A operação que começou com homens e cães percorrendo a mata, mergulhadores vasculhando o rio e drones sobrevoando a paisagem rural do Maranhão agora se desdobra em papéis, laudos e relatórios que, sob sigilo, seguem guardando o destino das duas crianças. O objetivo declarado pelas autoridades permanece o mesmo desde o primeiro dia: localizar Ágatha Isabelly e Allan Michael e esclarecer integralmente as circunstâncias do desaparecimento.
Leia outras notícias em recordnewsma.com. Siga a Record News MA no Instagram, curta nossa página no Facebook e se inscreva em nosso canal no Youtube. Envie informações e denúncias através do nosso WhatsApp (98) 99100-8186.




