Com 88,7% das famílias endividadas e R$ 62,5 bilhões drenados por apostas online em 2025, consumidor ludovicense freia compras e transfere comemoração para casa
O avanço das apostas online sobre o orçamento das famílias brasileiras se soma ao endividamento recorde e ajuda a explicar a estagnação do consumo no Dia das Crianças de 2026 em São Luís. Pesquisa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Maranhão (Fecomércio-MA) mostra que 55,8% dos consumidores da capital pretendem presentear na data, percentual praticamente idêntico ao de 2025, quando a intenção foi de 54,9%.
A movimentação financeira estimada é de R$ 134,0 milhões, alta de 5,3% sobre o ano passado. Descontada a inflação acumulada de 4,52% nos preços em São Luís, porém, o crescimento real também indica estagnação. O gasto médio por presente ficou em R$ 303,47, com variação de 3,7%, abaixo da inflação.
O cenário de restrição orçamentária aparece no endividamento das famílias ludovicenses, que chegou a 88,7% em setembro, contra 71,4% no mesmo mês do ano anterior, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), analisada pela Fecomércio-MA. O patamar é próximo do recorde de 91,1% registrado em março de 2021, auge do comprometimento de renda na pandemia.
A esse quadro se soma a saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras para plataformas de apostas em 2025, segundo a terceira edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, elaborado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (Cicef). O valor equivale a cerca de 0,68% da renda disponível das famílias. Entre outubro de 2024 e março de 2026, a perda média foi estimada em R$ 4,7 bilhões por mês.
O estudo afirma que o montante representa uma transferência expressiva de renda das famílias para o setor, com potencial impacto sobre a capacidade de honrar compromissos financeiros, e reduz os recursos disponíveis para outros gastos, especialmente em um cenário de elevado endividamento. Em junho, 81,6% das famílias brasileiras afirmaram ter algum tipo de dívida, segundo a Peic.
O relatório também aponta que as bets têm baixo efeito multiplicador sobre a economia, pois geram menos circulação de renda, empregos e atividade econômica do que os gastos com bens e serviços. Para os autores, essa transferência ajuda a explicar por que o consumo das famílias tem crescido em ritmo menor que o esperado, mesmo com o mercado de trabalho aquecido e a renda em alta.
Em nota, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), que representa o setor, contestou os dados. A entidade afirmou que o levantamento comete erros graves, ignora fatores macroeconômicos e que a receita bruta oficial do setor foi de R$ 37 bilhões em 2025. A associação também declarou que as transações citadas abrangem vários segmentos de entretenimento, não apenas as bets, e destacou o bloqueio de 25 mil sites ilegais e o encerramento de pelo menos 550 contas bancárias entre outubro de 2024 e dezembro de 2025.
Consumidor concentra compra em um único presente
Na hora de presentear, o consumidor ludovicense vai concentrar o orçamento em apenas um produto, perfil indicado por 73,5% dos entrevistados. Itens de maior valor perderam espaço, como celulares, que caíram de 6,5% para 3,5% das intenções, bicicletas, de 4,6% para 0,8%, e calçados, de 10,4% para 2,7%. Os brinquedos ampliaram a liderança, de 61,2% para 65,1%.
O número de indecisos cresceu de 19,5% para 32,1%, o equivalente a cerca de 254 mil pessoas que ainda não sabem se conseguirão ir às compras, contra 154 mil no ano anterior.
A intenção de comemorar a data subiu de 37,8% para 52,4%, mas a celebração foi transferida para casa. A maioria dos consumidores, 65,8%, pretende festejar na própria residência ou na casa de parentes.
Nos recortes por renda, entre quem ganha até R$ 2.000, o brinquedo chega a 73,3% das intenções. Na faixa de R$ 2.001 a R$ 3.000, ganham peso chocolate, com 21,6%, jogos educativos, com 20,6%, e material escolar, com 17,8%. Itens de menor custo ou utilitários ampliaram a participação, como chocolate, que subiu de 2,0% para 6,1%, e jogos educativos, de 5,5% para 7,2%. Vestuário caiu de 19,7% para 16,2%.
Pagamento parcelado e compras em dias úteis
O pagamento à vista com dinheiro ou Pix caiu de 33,3% para 21,2%, e o débito recuou de 21,1% para 12,5%. O cartão de crédito passou de 69,2% para 71,7% das intenções, e o Pix parcelado, de 1,0% para 3,4%. O crediário é mais usado entre consumidores de até 20 anos, com 17,1%.
O prazo ficou mais curto. Neste ano, 2 ou 3 parcelas concentram 67,3% das intenções, o que sugere que o consumidor pretende quitar a compra antes das faturas de dezembro.
O shopping continua sendo o principal destino, mas caiu de 50,2% para 36,9%. Lojas de rua e de bairro recuaram de 34,1% para 28,6%. Ganharam participação o Centro e a Rua Grande, de 21,3% para 27,1%, os camelôs, de 2,9% para 6,2%, e os supermercados, de 0,3% para 3,8%. O sábado caiu de 20,8% para 8,7%, enquanto a quarta-feira subiu de 16,9% para 33,3%. Outros 26,7% ainda não definiram o dia. As compras tendem a se concentrar entre os dias 5 e 9 de outubro.
A pesquisa foi realizada pela Fecomércio-MA entre 19 e 23 de setembro de 2026, com 700 consumidores entrevistados presencialmente em pontos de fluxo comercial de São Luís. O público-alvo é estimado em 791.768 consumidores com 18 anos ou mais, com nível de confiança de 95% e erro amostral máximo de 3,2 pontos percentuais.
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