Escuta junto aos fazedores de cultura busca identificar temas prioritários para encontro que deve ser realizado até o final de agosto
O diálogo com a comunidade é o primeiro passo para construir, de forma coletiva, os caminhos do Encontro de Práticas Indígenas do Povo Tremembé do Maranhão, que deve acontecer até o final de agosto, na Raposa. No último sábado, a coordenadora Metodológica do Comitê de Cultura do Maranhão, Carolla Ramos, e a coordenadora de Comunicação da instituição, Yndara Vasques, estiveram no município acompanhando a liderança Rosa Tremembé em uma agenda de escuta e diálogo com fazedores de cultura do povo Tremembé.
A atividade integra o processo de organização do encontro, promovido pelo Comitê de Cultura do Maranhão, em parceria com o Conselho Indígena dos Tremembés da Raposa, e teve como objetivo mapear os assuntos, práticas, saberes e desafios que deverão compor a programação da iniciativa.
A previsão é que o encontro seja realizado até o final de agosto, reunindo lideranças, fazedores de cultura e integrantes do povo Tremembé para um momento de troca de conhecimentos, valorização das práticas tradicionais e debate sobre os desafios enfrentados pela comunidade.
Mais do que definir previamente uma pauta, a proposta é construir o conteúdo do encontro a partir das experiências e das demandas apresentadas pelo próprio povo Tremembé. A metodologia de escuta busca garantir que os participantes sejam protagonistas na definição dos temas que serão debatidos, valorizando os conhecimentos tradicionais e as diferentes formas de expressão cultural presentes no território.
“O nosso objetivo é construir esse encontro junto com o povo Tremembé. A metodologia parte da escuta, porque entendemos que ninguém melhor do que os próprios fazedores de cultura e as lideranças para apontar quais são os temas, práticas e desafios que precisam estar presentes nessa agenda. É uma construção coletiva, e não uma programação pronta que chega ao território”, destaca Carolla Ramos.
Para a coordenadora de Comunicação do Comitê de Cultura, o processo de mapeamento também é fundamental para dar visibilidade às narrativas e às práticas culturais do povo Tremembé, respeitando seus modos próprios de organização e de transmissão de conhecimentos. “Quando falamos de comunicação, estamos falando também de escuta e de direito à voz. O que estamos fazendo na Raposa é ouvir quem produz, preserva e transmite a cultura Tremembé. A partir dessas vozes, poderemos construir uma comunicação que não fale sobre o povo, mas que contribua para que o próprio povo conte suas histórias, apresente seus saberes e fortaleça suas práticas culturais”, afirma Yndara Vasques.
Construção começou antes da chegada ao território
O planejamento da ação teve início há cerca de uma semana, com uma reunião preparatória para a organização do Encontro de Práticas Indígenas do Povo Tremembé do Maranhão. O momento contou com a participação de Rosa Tremembé, liderança do Povo Indígena Tremembé da Raposa, e Rosimeire Diniz, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), além da equipe do Comitê de Cultura.
A reunião estabeleceu as primeiras diretrizes para a construção metodológica do encontro e reforçou a necessidade de que a programação seja elaborada a partir das demandas e dos conhecimentos existentes no território. A partir dessa primeira etapa, a equipe avançou para a escuta direta dos fazedores de cultura, buscando identificar os assuntos que deverão orientar as próximas atividades e contribuir para a definição da programação do encontro, previsto para ocorrer até o final de agosto.
Para Rosa Tremembé, a construção do encontro representa uma oportunidade de fortalecer a identidade e a memória do povo. “É importante que esse encontro seja construído com o nosso povo, ouvindo as pessoas que fazem a cultura Tremembé acontecer todos os dias. Temos nossos saberes, nossas práticas, nossa memória e também muitos desafios. Queremos que tudo isso esteja presente, porque a nossa cultura está diretamente ligada ao nosso território e à nossa história”, ressalta Rosa Tremembé.
Tremembé: presença histórica e resistência na Raposa
A história do povo Tremembé ultrapassa os limites atuais do município da Raposa. Registros históricos apontam a presença dos Tremembé no Nordeste brasileiro desde o período colonial, incluindo áreas do Maranhão e do Ceará. Ao longo do processo de colonização, grupos Tremembé foram submetidos a aldeamentos e a processos de deslocamento e reorganização territorial. É importante, contudo, diferenciar a história geral da ocupação da região de Raposa da trajetória específica do povo Tremembé. Estudos sobre a formação do município registram a chegada, especialmente a partir da década de 1950, de pescadores e rendeiras vindos do Ceará, movimento que contribuiu para a formação da comunidade que posteriormente se consolidaria como Raposa.
Já o povo Tremembé da Raposa reivindica uma presença anterior à consolidação urbana do município, construindo sua identidade a partir da memória, da ancestralidade e da relação histórica com o território. Atualmente, os Tremembé da Raposa reivindicam o reconhecimento e a demarcação do território tradicional Caúra/Kaúra, processo relacionado à garantia dos direitos territoriais e à preservação de seus modos de vida.
Esse contexto demonstra que, para os Tremembé, cultura, memória, identidade e território são dimensões profundamente relacionadas. A preservação das práticas culturais não pode ser dissociada da garantia das condições para que o povo continue vivendo, produzindo seus conhecimentos e transmitindo seus saberes às novas gerações.
Cultura, participação e construção coletiva
O mapeamento realizado na Raposa integra uma perspectiva de atuação do Comitê de Cultura do Maranhão voltada à promoção da participação social, à construção coletiva e ao fortalecimento da diversidade cultural do estado. A proposta é que o Encontro de Práticas Indígenas seja resultado de um processo participativo, no qual as próprias comunidades possam apontar os conhecimentos, manifestações, práticas e questões que consideram prioritários.
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