O medo de sofrer violência sexual faz parte da realidade de 97% das mulheres no Brasil. É o que aponta uma pesquisa do Instituto Patrícia Galvão e do Instituto Locomotiva, cujos novos dados foram antecipados com exclusividade nesta segunda-feira à Agência Brasil.
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O levantamento mostra que o percentual de mulheres que declararam ter “muito medo de ser vítimas de um estupro” cresceu de forma constante nos últimos anos. Em 2020, eram 78%. O índice subiu para 80% em 2022 e chegou a 82% em 2025. Somam-se a essas os 15% que disseram ter “um pouco de medo”, totalizando 97% das mulheres que vivem com algum grau de temor da violência sexual.
Em dois grupos, a proporção das que sentem “muito medo” é ainda maior: 87% entre as jovens de 16 a 24 anos e 88% entre as mulheres negras.
A diretora de conteúdo do Instituto Patrícia Galvão, Marisa Sanematsu, ressalta que nenhum espaço é considerado seguro pelas mulheres. Segundo ela, o medo está presente desde a infância e em todas as situações, dentro e fora de casa. Como consequência, as mulheres desenvolvem estratégias próprias de proteção, como evitar sair à noite, não usar determinadas roupas, buscar estar sempre acompanhadas ou escolher trajetos mais longos na tentativa de se sentirem mais seguras.
Violência dentro de casa
Os institutos divulgam nesta segunda a segunda onda de dados da pesquisa de 2025. A primeira, publicada em setembro, já havia revelado que 15% das entrevistadas são sobreviventes de estupro e que, em oito a cada dez casos, a violência ocorreu quando a vítima tinha 13 anos ou menos.
Os novos dados mostram que, entre as vítimas com até 13 anos, 72% foram violentadas dentro da própria casa. Em metade dos casos, o abusador era um familiar e, em um terço, um amigo ou conhecido da família. No total, 84% dos estupros foram cometidos por homens do círculo social da vítima.
Entre as mulheres violentadas com 14 anos ou mais, o percentual de agressores conhecidos cai para 76%, mas segue como maioria. Nessa faixa, os abusadores incluem amigos, parceiros íntimos, familiares e ex-companheiros, e 59% dos casos ocorreram dentro de casa.
Apoio às vítimas
A pesquisa “Percepções sobre direitos de meninas e mulheres grávidas pós-estupro” ouviu 1,2 mil pessoas, homens e mulheres, de todas as regiões do país. Além de levantar as experiências das mulheres com a violência sexual, o estudo também captou a percepção geral dos entrevistados sobre o tema.
A concordância de que as mulheres têm medo de estupro é praticamente unânime: 99% dos entrevistados reconhecem esse temor. No entanto, 80% acreditam que as vítimas nunca ou quase nunca revelam a violência sofrida, principalmente por medo de ameaças do agressor, de não serem ouvidas ou por vergonha.
Os dados gerais refletem o que as próprias vítimas relataram na primeira fase da pesquisa. Entre as mulheres que sofreram abuso antes dos 14 anos, cerca de 60% não contaram para ninguém. Apenas 15% foram levadas a uma delegacia e 9%, a uma unidade de saúde.
O apoio a políticas de acolhimento é amplo: 93% concordam que o Estado deve fornecer acompanhamento psicológico imediato a vítimas de estupro, e o mesmo percentual defende que prefeituras e governos ampliem a divulgação dos serviços de saúde especializados.
Depoimentos
A pesquisa também traz relatos de mulheres que sofreram violência sexual. Uma mulher parda, moradora do Sudeste, entre 25 e 44 anos, contou que começou a ser abusada aos seis anos pelo próprio pai, que a fazia acreditar que era culpada e que ninguém acreditaria nela.
Outra vítima, mulher preta da região Sudeste, com 45 anos ou mais, relatou que tentou pedir ajuda à mãe aos 11 anos, mas não foi acolhida. A mãe dizia que ela queria acabar com o casamento. A avó foi quem percebeu algo estranho e a levou de volta para casa.
A gravidez decorrente do estupro e a falta de suporte para o abortamento legal também aparecem nos relatos. Uma jovem parda do Sudeste, entre 16 e 24 anos, contou que engravidou após um abuso aos 13 anos. Sem contar aos pais, recorreu a uma amiga, que a levou a um aborto clandestino para realizar o procedimento.
Acolhimento é garantido em lei
Marisa Sanematsu, do Instituto Patrícia Galvão, explica que o atendimento imediato e integral às vítimas de violência sexual em todos os hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS), sem exigência de boletim de ocorrência, é garantido por lei no Brasil desde 2013. Ela defende que o Estado invista na divulgação dos direitos das vítimas e de como acessá-los.
A maioria da população também apoia os serviços de interrupção da gravidez nos casos previstos em lei, como o estupro. Nove em cada dez entrevistados concordam que todas as vítimas devem ser informadas, em delegacias ou serviços médicos, sobre os protocolos para evitar infecções sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada.
Além disso, 86% acreditam que devem existir serviços públicos em todas as cidades para a interrupção da gestação em casos de estupro. No entanto, apenas metade dos entrevistados conhece algum serviço que realize esse atendimento.
A diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, Maíra Saruê Machado, afirma que o levantamento evidencia a necessidade de ampliar e preparar melhor os serviços de acolhimento. Segundo ela, há amplo apoio da população para que as vítimas tenham acesso aos direitos garantidos por lei, mas essas informações ainda não chegam a quem mais precisa.
Direitos sob constante ameaça
A comunicadora social e ativista Angela Freitas, co-diretora da campanha “Nem Presa Nem Morta”, aponta que o cumprimento da legislação depende da disposição de gestores políticos. Segundo ela, a maioria dos municípios não dispõe de serviços de atendimento, o que obriga as vítimas a percorrer longas distâncias.
Freitas avalia que, apesar dos avanços conquistados com a Constituinte, a criação do SUS e do Sistema Único de Assistência Social, essas políticas ainda não se consolidaram como direitos incontestes e vivem sob ameaça constante de retrocesso.
Ela também foi uma das articuladoras da campanha “Criança não é mãe”, contra projeto de lei que pretendia equiparar o aborto ao crime de homicídio, inclusive nos casos previstos em lei. Freitas destaca que as crianças e adolescentes que engravidam após violência enfrentam dificuldades particulares.
Segundo ela, os episódios de abuso muitas vezes não são revelados de imediato porque as crianças não são preparadas para entender que seu corpo deve ser respeitado, inclusive por pessoas próximas. A falta de diálogo e a condescendência com essas situações fazem com que a gravidez só seja percebida tardiamente. Quando essas meninas chegam aos serviços de saúde em busca do direito de interromper a gestação, encontram obstáculos dentro do próprio sistema.
