Pesquisa realizada na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) identificou um aumento expressivo na resistência de uma bactéria comum entre gestantes a antibióticos utilizados como alternativa em casos de alergia. O fenômeno, segundo os pesquisadores, tem ligação direta com o consumo elevado de medicamentos durante a pandemia de Covid-19.
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O estudo, conduzido no Hospital Universitário Lauro Wanderley entre 2020 e 2024 e publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, analisou amostras de gestantes de alto risco. Os dados revelaram que a bactéria Streptococcus agalactiae apresentou um salto de resistência à eritromicina, que quase quadruplicou no período. Embora o microrganismo seja comum no organismo feminino, habitando intestino e região genital sem causar danos, ele representa risco no momento do parto.
De acordo com Vinícius Perez, pesquisador vinculado à UFPB e à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e um dos autores do trabalho, a alta resistência está associada ao uso disseminado de azitromicina durante a emergência sanitária. “A eritromicina não é utilizada para tratar essa bactéria, mas como ela é uma molécula muito similar à azitromicina usada de forma indiscriminada na comunidade durante a Covid-19, isso serviu como um combustível para que esses microrganismos se tornassem resistentes”, explica.
O principal risco ocorre no trabalho de parto: se a gestante estiver colonizada e não receber a profilaxia correta com antibióticos, o bebê pode ser infectado ao passar pelo canal vaginal. Em recém-nascidos, a infecção pode evoluir para quadros graves como sepse, meningite e pneumonia, de difícil identificação nos primeiros dias de vida.
A penicilina, tratamento padrão, ainda se mostra eficaz contra a bactéria. O alerta dos pesquisadores, no entanto, se volta para gestantes alérgicas a esse medicamento. Para elas, as alternativas são justamente a eritromicina e a clindamicina, que agora apresentam taxas elevadas de falha. “Hoje ainda podemos usar a penicilina, mas, se um dia não pudermos mais, teremos um grande problema”, afirma Perez.
Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) não garante o teste de triagem para todas as gestantes. O exame é recomendado obrigatoriamente apenas para casos considerados de alto risco, o que deixa parte das mulheres sem acesso à detecção da bactéria no pré-natal. Os autores do estudo apontam que a universalização desse rastreamento entre a 35ª e a 37ª semanas de gestação é o próximo passo necessário para as políticas públicas de saúde. Enquanto isso, a recomendação é que gestantes busquem orientação médica sobre a realização do exame.
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