Medida preventiva foi tomada após falhas de segurança resultarem na morte de adolescente de 13 anos em Mato Grosso do Sul
A empresa Discord informou nesta segunda-feira (17) que interrompeu, por tempo indeterminado, a funcionalidade de transmissão de vídeos e compartilhamento de tela para usuários no Brasil. A suspensão atende a uma determinação cautelar da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), expedida na quarta-feira (12), com prazo de três dias úteis para cumprimento.
A decisão da agência reguladora foi motivada por evidências robustas de que a plataforma não adotou medidas razoáveis para prevenir e mitigar riscos de exposição de crianças e adolescentes a conteúdos e práticas que representam graves violações de direitos, incluindo indução à automutilação e ao suicídio. A ação faz parte de um processo de fiscalização instaurado em 7 de agosto para apurar falhas na proteção de menores no ambiente digital da plataforma.
O gatilho para a medida foi o caso de uma adolescente de 13 anos, moradora de Naviraí (MS), que tirou a própria vida em 22 de julho durante uma transmissão ao vivo na plataforma. De acordo com informações obtidas pela ANPD, a transmissão ocorreu em um servidor privado e foi assistida por mais de duzentos usuários. O próprio Discord admitiu falhas em seu sistema de segurança no episódio: a primeira comunicação de risco iminente foi recebida às 3h50, mas o servidor só foi retirado do ar às 4h15, aproximadamente duas horas depois.
Em nota divulgada nesta segunda, a empresa confirmou o cumprimento da determinação. “Em cumprimento à determinação da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), suspendemos os recursos de vídeo do Discord no Brasil”, afirmou a companhia. A suspensão não afeta as comunicações por texto, áudio e demais recursos da plataforma, que permanecem disponíveis.
O Discord classificou a morte da adolescente como “um caso devastador” e resultado de uma “campanha coordenada de violência extrema conduzida em múltiplas plataformas” digitais. A empresa ressaltou que as transmissões de vídeo são “uma parte importante e muito valorizada da experiência no Discord” e afirmou que está dialogando ativamente com a ANPD em busca de uma solução que permita restabelecer os recursos para os usuários brasileiros.
A suspensão das lives será mantida até que a plataforma demonstre a implementação e a efetividade de medidas técnicas, de segurança e de governança adequadas aos riscos identificados para crianças e adolescentes, conforme o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), em vigor desde março de 2026. A lei exige que plataformas de acesso provável por menores adotem mecanismos para prevenir violência, assédio, automutilação e suicídio, além de sistemas confiáveis de verificação de idade.
Caso sejam constatadas irregularidades no processo de fiscalização, a ANPD poderá aplicar multa de até R$ 50 milhões por infração. O debate sobre a segurança digital ganhou força após a primeira-dama Janja da Silva defender publicamente a retirada do Discord do ar no Brasil, e a Advocacia-Geral da União (AGU) já anunciou que ingressará com ação civil pública para responsabilizar a plataforma.
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