Pesquisa da UFSCar e University College London acompanhou 3,2 mil pessoas por oito anos e revelou que o excesso de sono noturno está ligado à redução da velocidade da marcha no sexo masculino, mas não entre as mulheres. Especialistas defendem que a queixa deve ser considerada um marcador clínico de vulnerabilidade.
Uma pergunta aparentemente simples, “quantas horas o senhor dorme por noite?”, pode se transformar em uma ferramenta valiosa para antecipar a perda de mobilidade em homens com mais de 60 anos. É o que sugere um estudo longitudinal conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da University College London, no Reino Unido, que acompanhou 3.208 pessoas idosas ao longo de oito anos.
O trabalho, publicado no Journal of the American Medical Directors Association, mostrou que o padrão de sono prolongado, definido como mais de nove horas por noite, esteve associado a uma redução significativa na velocidade da caminhada (chegando a até 25% da velocidade inicial), mas apenas entre os participantes do sexo masculino. Para as mulheres, nenhuma relação entre a duração do sono e a lentidão da marcha foi observada.
A lentidão da marcha é considerada um preditor importante de declínio funcional na velhice. Está diretamente associada ao aumento do risco de quedas, hospitalização, perda de independência, institucionalização e morte. Por isso, a identificação precoce de fatores de risco é uma das prioridades da gerontologia.
Foram analisados dados de 1.582 homens e 1.626 mulheres com 60 anos ou mais, todos integrantes do Estudo Longitudinal Inglês sobre Envelhecimento (ELSA). A pesquisa incluiu apenas indivíduos que não apresentavam problemas preexistentes relacionados à velocidade de caminhada no início do acompanhamento.
Os resultados apontaram que os homens que dormiam acima de nove horas por noite tiveram uma piora acentuada na mobilidade ao longo dos oito anos de estudo. Já os sintomas de insônia e as noites curtas não mostraram impacto sobre a marcha masculina. No grupo feminino, nenhuma das variáveis de sono avaliadas apresentou correlação com a perda de velocidade.
De acordo com os pesquisadores, o sono prolongado em homens idosos costuma vir acompanhado de maior fragmentação e menor quantidade de fases profundas. Essa baixa qualidade do repouso, ainda que com muitas horas deitado, compromete a liberação de testosterona, hormônio essencial para a manutenção da massa muscular. A queda desse hormônio acelera a perda de força e, consequentemente, a redução da velocidade da caminhada.
Outro mecanismo envolvido, segundo os autores, é o processo conhecido como inflammaging – uma inflamação crônica e de baixo grau que se intensifica com o envelhecimento. O sono longo e interrompido contribui para agravar esse quadro, promovendo degradação das células do tecido musculoesquelético, inibição da síntese de proteínas e redução da massa muscular.
A ausência de efeito significativo entre as mulheres foi atribuída ao perfil hormonal distinto. Nelas, hormônios como o IGF-1 e o GH têm papel mais relevante no anabolismo muscular do que a testosterona, o que pode explicar por que o sono prolongado não influenciou a mobilidade feminina no estudo.
Embora o padrão de sono mude naturalmente com o envelhecimento, os especialistas reforçam que, para idosos, a faixa considerada saudável fica entre seis e nove horas por noite. Dormir mais do que isso, sobretudo de forma crônica, deve ser visto como um sinal de alerta.
Os pesquisadores defendem que o sono prolongado noturno em homens acima de 60 anos seja incorporado à rotina clínica como um marcador de risco para declínio da mobilidade. A pergunta sobre as horas de sono, lembram, é de baixo custo, rápida e facilmente aplicável em consultas e triagens.
O estudo contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O artigo completo pode ser acessado no endereço: jamda.com/article/S1525-8610(25)00556-0/abstract.
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