Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificaram que a espécie de microalga Asterionellopsis tropicalis reage de forma direta e mensurável a intervenções humanas no litoral, como dragagens e engordas de praia. O aumento da densidade desses organismos em ambientes com maior turbidez e suspensão de sedimentos aponta para um potencial uso da espécie como bioindicador, ferramenta que pode auxiliar na avaliação da intensidade e da duração dos impactos ambientais gerados por empreendimentos costeiros.
Os resultados foram publicados na sexta-feira (26) na revista científica Biota Neotropica. O estudo analisou 130 amostras coletadas em diferentes ecossistemas marinhos da costa cearense, entre eles estuários, zonas de arrebentação de praias arenosas e a plataforma continental. As coletas abrangeram períodos de seca e de chuva, com o objetivo de mapear a distribuição geral da espécie em condições naturais.
Desse total, 69 amostras foram obtidas entre 2018 e 2022, em um recorte temporal que cobriu as fases anteriores, simultâneas e posteriores a duas intervenções específicas: uma dragagem de um porto e uma engorda de praia. Os pesquisadores mediram parâmetros como salinidade, temperatura e transparência da água, além de quantificar a presença e a densidade das algas em cada amostra.
O resultado mostrou que, nos períodos em que as obras elevavam a turbidez da água, a densidade de Asterionellopsis tropicalis crescia de forma significativa. A espécie, que faz parte do fitoplâncton e vive em suspensão na coluna d’água, é naturalmente adaptada a ambientes mais turvos. Segundo a pesquisadora Andréa de Oliveira da Rocha Franco, autora correspondente do artigo, as intervenções no fundo marinho ressuspendem sedimentos e alteram a disponibilidade de luz, criando condições nas quais a microalga encontra oportunidade para se proliferar.
A pesquisadora defende que o biomonitoramento com base nesse organismo pode oferecer vantagens práticas para órgãos ambientais e gestores públicos. Entre elas, está o acompanhamento mais efetivo da duração do impacto, a identificação de áreas mais sensíveis e o aprimoramento de estratégias de manejo em regiões litorâneas sujeitas a obras recorrentes.
Para que o método seja aplicado de forma confiável, porém, é necessário conhecer previamente o comportamento da espécie em condições naturais, sem interferência antrópica. Isso exige, segundo a autora, mais investimentos em estudos sobre a biodiversidade do fitoplâncton na costa brasileira, especialmente em áreas sob pressão de atividades humanas.
A equipe da UFC pretende agora ampliar a linha de pesquisa. Os próximos passos incluem investigar como a espécie responde a cenários mais complexos, nos quais, além da redução da transparência da água, há também a presença de metais pesados ou outros contaminantes. Outra frente é compreender a dinâmica de outras espécies do fitoplâncton em situações de estresse, para que seja possível elencar um conjunto de organismos indicadores e obter um diagnóstico mais amplo e preciso dos efeitos ambientais. Os pesquisadores também destacam a importância de estudar se as alterações observadas têm caráter temporário ou permanente, e quais as consequências para o próprio fitoplâncton e para a cadeia marinha como um todo.
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