Enquanto motoristas e funcionários acumulam queixas por salários atrasados, falta de pagamento de FGTS e suspensão do auxílio alimentação, o grupo Expresso Rei de França, que opera linhas de ônibus em São Luís, transferiu R$ 1,6 milhão para uma mineradora controlada pela família do empresário Pedro Paulo Pinheiro Ferreira, o PP, em um período de quase três meses no fim de 2025. Os repasses, revelados por extratos bancários de duas empresas do grupo, fazem parte de uma movimentação total de R$ 6,7 milhões em débitos que incluem até mesmo despesas pessoais do executivo, como aluguel e fatura de cartão de crédito.
Os documentos detalham transferências via Pix que somam R$ 131,7 mil entre setembro e novembro do ano passado com descrições como “Aluguel PP”, “Cartão de crédito PP”, “Locação apto PP” e “Enxoval PP”. Os valores foram enviados diretamente ao empresário ou destinados ao pagamento de contas em seu nome.
O grupo Expresso Rei de França, que acumula dívidas de R$ 177 milhões e está em processo de recuperação judicial, canalizou os recursos para a Goldcoltan, empresa de mineração pertencente a Pedro Paulo, que também dá nome a uma firma de serviços de limpeza registrada em nome de sua filha, Jessica Piorski. O dinheiro transferido é oriundo da receita arrecadada com o sistema de transporte público da capital maranhense.

Pedro Paulo ocupa atualmente o cargo de vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de São Luís (SET), entidade responsável por gerir a receita dos bilhetes de transporte público e repassar os valores às empresas autorizadas a operar na cidade. A Expresso Rei de França, formalmente controlada por sua filha, a fotógrafa Deborah Piorski Ferreira, é uma das beneficiárias desses repasses.
Defesa admite manobra para driblar bloqueios
Procurada pelo Metropoles, a advogada Evelline Freitas, que representa o grupo na recuperação judicial, confirmou que a transferência dos recursos para a Goldcoltan teve como objetivo contornar os bloqueios judiciais que recaíam sobre as contas das empresas de ônibus.
“As empresas em recuperação judicial vinham sofrendo bloqueios e constrições recorrentes em suas contas. Diante desse cenário, foi adotada uma sistemática operacional de centralização financeira, com repasses ao final do dia para conta vinculada à Goldcoltan, a partir da qual eram realizados pagamentos de despesas operacionais essenciais do grupo”, afirmou a advogada.
Evelline Freitas sustentou ainda que os lançamentos não podem ser interpretados de forma isolada como “desvios”, pois estariam inseridos em “uma dinâmica de preservação da continuidade operacional, manutenção das atividades empresariais e cumprimento de obrigações correntes diante das restrições bancárias enfrentadas pelas empresas em recuperação.”
A defesa do grupo, no entanto, não apresentou esclarecimentos sobre os pagamentos de despesas pessoais de Pedro Paulo identificados nos extratos. Questionada especificamente sobre essas transações, a advogada limitou-se a dizer que “eventuais esclarecimentos adicionais poderão ser prestados em momento oportuno, pelos canais adequados, com a devida análise técnica e documental do caso.”

Estrutura familiar e “laranjas”
Levantamentos extrajudiciais realizados por credores do grupo Expresso Rei de França apontam a existência de uma rede de empresas registradas em nome da esposa e dos filhos de Pedro Paulo. Os credores sustentam que os parentes são utilizados como “laranjas” para ocultar a real propriedade dos negócios.

O próprio grupo de transporte é exemplo dessa estrutura. As empresas do conglomerado, incluindo a Expresso Grapiúna, tiveram Pedro Paulo como administrador entre abril de 2021 e janeiro de 2024. A partir de então, sua filha Deborah Piorski passou a controlar a empresa de ônibus por meio de uma holding, em uma transação de R$ 1 milhão registrada na Junta Comercial do Maranhão (Jucema).

Perfil profissional e residência de Deborah, no entanto, contrastam com a posição de controladora de uma das principais empresas de transporte de São Luís. Nas redes sociais, ela se apresenta como “fashion photographer” e reside em Fortaleza, distante cerca de 670 km da sede da empresa em que figura como sócia.
Já Jessica Piorski, filha mais nova do empresário, consta como proprietária de ao menos quatro empresas: a Goldcoltan Services Ltda (firma de serviços de limpeza), a Viação Tucujus Ltda (transporte coletivo em Macapá), a JPF Trade Importação e Exportação Ltda (comércio atacadista de açúcar) e a P3 Bank Ltda (fornecimento de conta e cartão para motoristas). Em suas redes sociais, no entanto, Jessica se apresenta como publicitária e criadora de conteúdo geek.
A reportagem tentou contato com Deborah Piorski, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.
Crise e contradições
A situação do grupo Expresso Rei de França expõe o contraste entre a grave crise financeira enfrentada pela empresa (que deixou de pagar salários, benefícios e contribuições trabalhistas) e a capacidade de transferir recursos vultosos para outros negócios da família e arcar com despesas pessoais do empresário.
Credores ouvidos pela reportagem demonstram preocupação com o que classificam como tentativa de blindagem patrimonial, justamente em um momento em que a empresa deveria concentrar esforços no pagamento de suas dívidas e na preservação dos empregos e serviços à população.
O caso também levanta questionamentos sobre a fiscalização dos recursos públicos destinados ao transporte coletivo, uma vez que a verba que abastece o sistema municipal, gerida pelo sindicato comandado por PP, acabou sendo canalizada para atividades alheias à operação do serviço de ônibus na capital maranhense.
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