A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Fecomércio-MA em parceria com a CNC, aponta uma virada no orçamento das famílias da capital maranhense no início de 2026. Depois de um ano de queda em 2025, o percentual de famílias com contas em atraso saltou de 25,1% em janeiro para 28,8% em março, uma alta de 14,7%.
O dado indica uma piora na capacidade de pagamento dos consumidores no curto prazo. O movimento ocorreu com intensidade superior ao crescimento do endividamento geral, que passou de 73,9% para 78,8% no mesmo período, uma elevação de 6,6%. A diferença entre os dois índices sinaliza que o uso recorrente do crédito para sustentar o consumo, muitas vezes para cobrir despesas essenciais, está chegando a um limite. As famílias acessam mais crédito, mas encontram dificuldades crescentes para honrar os boletos.
O cenário local reflete uma tendência nacional. Segundo a CNC, o percentual de famílias endividadas no Brasil atingiu 80,4% em março, o maior nível da série histórica, confirmando a forte dependência do crédito para a manutenção do custo de vida.
O principal fator de pressão continua sendo a inflação. Em março de 2026, a inflação em São Luís chegou a 1,39%, uma das maiores variações entre as capitais brasileiras. Itens básicos, como alimentação e transporte, foram os principais responsáveis pela compressão da renda disponível. A alta de 4,47% nos combustíveis, com destaque para a gasolina, teve efeito cascata sobre toda a cadeia logística, encarecendo bens e serviços. Com menos dinheiro sobrando, o consumidor recorre ao cartão de crédito, modalidade que responde por 78,2% das dívidas, para equilibrar as contas, pagando juros elevados em um ambiente ainda restritivo.
Embora a taxa Selic esteja em ciclo de redução, os 14,75% ao ano ainda pesam sobre o custo do dinheiro. Para o empresariado, o quadro exige cautela, pois o comprometimento médio da renda das famílias, mantido próximo de 30%, reduz drasticamente a margem para novas compras e investimentos.
O presidente da Fecomércio-MA, Maurício Feijó, avalia que os dados exigem uma postura estratégica dos lojistas diante da nova realidade. Para ele, o cenário de inadimplência crescente é um sinal claro para o empresariado recalibrar suas margens. O foco, segundo Feijó, precisa migrar do volume de vendas a qualquer custo para uma gestão mais eficiente da carteira e dos riscos. O lucro sustentável nesse momento virá da inteligência na concessão de crédito e do controle rigoroso dos custos operacionais, garantindo que a margem compense a volatilidade do consumidor.
Apesar da piora nos indicadores, há um dado que traz um alento parcial. O percentual de famílias que declaram não ter nenhuma condição de pagar suas dívidas recuou de 5% para 4,5%, o que sugere que, embora o atraso esteja mais comum, as famílias ainda buscam alternativas, como renegociações e cortes de gastos, para manter o equilíbrio financeiro. No entanto, a combinação de crédito caro, inflação pressionando itens de primeira necessidade e uma estrutura de dívidas concentrada em prazos curtos aponta para uma provável desaceleração do consumo nos próximos meses, exigindo que o comércio se prepare para um ambiente de vendas mais desafiador.
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