Um grupo de deputados brasileiros aliados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva protocolou nesta semana, em Washington, um pedido formal para que parlamentares democratas dos Estados Unidos investiguem uma suposta rede financeira que teria operado em território americano em benefício de integrantes da família Bolsonaro. O alvo central do documento são os senadores Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.
O pedido, assinado por Pedro Uczai (PT-SC), Pedro Campos (PSB-PE), Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e André Janones (Rede-MG), tem como foco uma possível conexão entre recursos ligados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, estruturas financeiras da Reag Investimentos e atividades atribuídas a Eduardo nos Estados Unidos. O documento, de oito páginas, baseia-se em reportagens jornalísticas, documentos públicos e investigações em curso no Brasil.
Os parlamentares brasileiros afirmam que há elementos suficientes para justificar a análise de movimentações financeiras, contratos, empresas, fundos de investimento, escritórios de advocacia e estruturas corporativas sob jurisdição americana. Entre as hipóteses a serem investigadas está a existência de um fluxo financeiro que teria partido de estruturas ligadas ao Banco Master e alcançado empresas ou prestadores de serviços nos Estados Unidos, com eventual benefício direto ou indireto a Eduardo Bolsonaro.
O pedido ocorre em um momento de maioria republicana nas duas casas do Congresso americano, o que dificulta o avanço de uma investigação conduzida pelo Legislativo neste ano. Além disso, apurações desse tipo costumam concentrar-se em ações do Poder Executivo, não em casos de corrupção envolvendo empresas privadas. Parlamentares poderiam, alternativamente, solicitar ao Departamento de Justiça dos EUA que conduzisse a apuração, mas esse tipo de pedido tende a ter maior peso político quando parte de congressistas alinhados ao partido do presidente americano, Donald Trump.
O deputado democrata Jim McGovern (Massachusetts), que se reuniu com os brasileiros na quinta-feira (4), afirmou à Folha ter sido uma boa reunião e disse ser “muito solidário a muitas das preocupações que eles levantaram”. Sobre o pedido de investigação, McGovern afirmou não ter poder para abrir uma apuração, mas declarou que “claramente são problemas de grande preocupação para mim”. Ele também disse que os parlamentares concordaram que a “corrupção, seja no Brasil ou nos EUA, precisa ser denunciada”.
A congressista americana Sydney Kamlager-Dove (Califórnia), copresidente da Bancada do Brasil (Brazil Caucus), afirmou à reportagem que irá analisar o pedido. Segundo ela, a possível utilização do sistema financeiro americano para atividades impróprias é uma questão de interesse público transnacional. “Se bancos dos EUA estiverem de alguma forma envolvidos em algo ilegal ou impróprio, o povo americano e o brasileiro precisam saber”, declarou.
O pedido de investigação menciona reportagem divulgada pelo Intercept Brasil segundo a qual Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Vorcaro para a produção do filme “Dark Horse”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. A Polícia Federal apura se os repasses feitos por Vorcaro, por meio da Entre Investimentos e do fundo Havengate, localizado nos EUA, foram usados para custear a vida de Eduardo Bolsonaro, que mora no país desde o ano passado.
O documento também cita suspeitas envolvendo fundos ligados à Reag Investimentos e investigações sobre possíveis esquemas de lavagem de dinheiro relacionados ao PCC (Primeiro Comando da Capital). Os deputados pedem que autoridades americanas verifiquem se recursos desse ambiente financeiro foram usados para financiar atividades políticas, jurídicas, de comunicação ou lobby nos Estados Unidos.
Os parlamentares brasileiros afirmam, no entanto, não atribuir responsabilidade criminal definitiva a qualquer pessoa. O objetivo, segundo o texto, é solicitar a abertura de procedimentos investigativos capazes de confirmar ou descartar as suspeitas apresentadas. O documento pede ainda a preservação imediata de documentos e a cooperação entre autoridades dos dois países.
A visita da comitiva brasileira ocorre na mesma semana em que Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e o blogueiro Paulo Figueiredo estiveram na Casa Branca para uma reunião com Donald Trump. Eles afirmaram que a principal demanda apresentada foi o pedido de classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Designação anunciada na semana passada e que será formalizada nesta sexta-feira (5).
O governo Lula tem atribuído ao senador Flávio Bolsonaro a conclusão de uma investigação do USTR (escritório de comércio dos EUA) que propôs a aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A decisão final cabe a Trump, que tem até 15 de julho para se manifestar. Flávio negou ter feito esse tipo de solicitação e enviou ao secretário de Estado, Marco Rubio, um pedido para que os EUA não tarifem o Brasil.
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