O futuro da avaliação da educação básica no Brasil começou a ser redesenhado. Com o decreto nº 12.915 e as mudanças anunciadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Enem ganhou ainda mais centralidade no cenário educacional brasileiro. Além da já consolidada função de acesso ao ensino superior, o exame passou a integrar o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) e substituirá a atual prova aplicada para medir a qualidade da educação ao fim da educação básica.
Na visão do gerente de Avaliação e Desempenho Educacional da FTD Educação e integrante da ABAVE (Associação Brasileira de Avaliação Educacional), Matheus Lincoln, as mudanças fortalecem o exame e trazem aspectos inovadores, caminhando para um modelo que valorize o estudante que tenha consolidado habilidades ligadas à leitura, interpretação e resolução de problemas nas quatro áreas do conhecimento e na redação.
O que muda já em 2026
Para que o Enem possa cumprir esse papel ampliado, o exame passará por mudanças graduais até 2028. Algumas delas começam a aparecer já em 2026.
Neste ano, as provas de Ciências Humanas e Ciências da Natureza passam a contar com suportes e situações-problema mais longos, utilizados para responder mais de uma questão. Essa novidade já esteve presente na prova de Linguagens de 2025 e agora se estende às demais áreas.
Outro passo importante será a publicação, ainda em 2026, das novas matrizes de referência do Enem, totalmente alinhadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Essas matrizes entrarão em vigor a partir da prova de 2028.
Na visão do especialista, saem na frente os estudantes da primeira série do Ensino Médio em 2026 que utilizam materiais já alinhados à BNCC, o que reduz o risco de defasagem entre o que é ensinado e o que será cobrado no exame. Matheus Lincoln alerta que, como em 2028 a prova irá abordar uma nova matriz alinhada à BNCC, um ponto de atenção são aquelas escolas que deixam de se atualizar e seguirão utilizando materiais alinhados aos conteúdos do exame atual. Por isso, segundo ele, é muito importante que os estudantes que estão na primeira série do Ensino Médio em 2026 e suas famílias verifiquem se a escola deles se atualizou, para que não sejam prejudicados em 2028.
Novos desafios logísticos para o Enem
A incorporação do Enem ao Saeb também traz desafios de ordem operacional. Hoje, o Saeb é aplicado durante a semana, em horário de aula, enquanto o Enem ocorre tradicionalmente aos domingos.
O gerente da FTD Educação afirma que um dos desafios para o Inep é o de passar a ofertar mais uma data de aplicação para o Enem, pois o Saeb ocorre durante a semana e no horário de aula dos estudantes. Ele ressalta que isso é ótimo para o estudante pela possibilidade de fazer o exame em horário de aula e reduzir suas preocupações com deslocamento e a possibilidade de virar um atrasado do Enem. Matheus Lincoln destaca que ainda não está claro como será esse processo e se o estudante vai poder optar entre fazer as provas no domingo ou em dia e horário de aula, e recomenda que todos precisarão ficar ligados nos próximos anúncios sobre o Enem.
Diagnóstico detalhado para escolas e redes
Ao passar a integrar o Saeb, o Enem deixa de ser apenas uma fotografia do desempenho individual e passa a produzir resultados institucionalizados para as escolas, indicando quantos estudantes estão com aprendizagem adequada, básica, insuficiente ou avançada.
Matheus Lincoln explica que um ponto positivo para todas as escolas é que, fazendo parte do Saeb, o Enem passa a ter resultados para a instituição, trazendo para ela o quantitativo de estudantes com aprendizagem adequada, insuficiente, básica e avançada. Esse diagnóstico da aprendizagem, segundo ele, é fundamental para apoiar uma gestão focada na melhoria dos processos pedagógicos com base em evidências. A faixa de proficiência dos estudantes permite o planejamento de ações de recuperação, recomposição e aceleração das aprendizagens, uma vez que a escola vai saber o que funcionou e o que pode ser ajustado em seus processos pedagógicos.
Benefícios para estudantes, famílias e escolas
Na síntese do especialista, a mudança tem potencial para beneficiar todos os públicos envolvidos, desde que acompanhada de adaptação curricular e apoio à gestão escolar.
Para os estudantes, conforme Matheus Lincoln, trata-se de uma prova mais moderna e preocupada se eles desenvolveram habilidades e competências ligadas à leitura, interpretação e resolução de problemas. Perde quem só decorou e ganha quem aprendeu de verdade. Para as famílias, é mais transparência sobre os resultados de aprendizagem das escolas, permitindo que elas possam cobrar melhorias no processo pedagógico e acompanhar de perto essas mudanças. Para as escolas, o resultado da avaliação se transforma em um diagnóstico detalhado sobre a aprendizagem de seus alunos e, a partir dele, a escola pode melhorar seus processos pedagógicos e garantir o bom desempenho dos estudantes. O especialista conclui que, apesar dos desafios da adaptação às mudanças, no longo prazo todos irão ganhar com essa mudança.
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