Em meio às celebrações do Abril Indígena, período que antecede o Dia dos Povos Indígenas em 19 de abril, a organização Ação Educativa lança a revista “Territórios Culturais Indígenas: Gavião, Guajajara e Krikati”. A publicação tem como proposta dar visibilidade aos saberes, práticas e modos de vida desses povos, com ênfase no contexto cultural do Maranhão.
A revista é fruto de um processo participativo realizado em 2024 no estado, dentro do “Projeto Território de Conhecimentos: diálogos horizontais para aprendizagens significativa”. O conteúdo foi construído a partir da escuta de caciques, professores, anciãos, anciãs e jovens lideranças das três etnias. Entre os temas abordados estão língua, rituais, artesanato, território, cosmologia e educação, todos narrados pelas próprias comunidades.
A publicação busca preencher uma lacuna histórica no debate público e na educação. Embora a Lei 11.645/2008 torne obrigatório o ensino da história e cultura indígena nas escolas, há carência de materiais didáticos elaborados a partir dos territórios e das vozes indígenas. A revista se propõe, assim, a fortalecer práticas pedagógicas mais alinhadas à diversidade cultural do país.
O lançamento ocorrerá de forma online, com acesso gratuito no site da Ação Educativa. A iniciativa também reflete o cenário atual dos povos indígenas no Brasil, marcado por ameaças territoriais, violência contra lideranças, impactos ambientais e desafios para a preservação de línguas e tradições. Relatos da revista mencionam a degradação de rios, a escassez de matérias-primas para o artesanato e as limitações de um modelo escolar que fragmenta saberes tradicionalmente integrados.
Como desdobramento da publicação, a Ação Educativa oferece o curso online gratuito “Territórios Culturais Indígenas: saberes, práticas e currículo”. Com carga horária de 20 horas e formato autoinstrucional, o curso foi concebido a partir das mesmas escutas participativas. É direcionado especialmente a educadores da rede pública, mas aberto ao público geral. As inscrições podem ser feitas por formulário no site da instituição.
Um dos módulos conta com a participação do professor doutor Edson Kayapó, que aborda a Lei 11.645/08 e a obrigatoriedade do ensino de história e cultura indígena nas escolas. O módulo discute a construção de estereótipos e preconceitos sobre os povos indígenas, sua diversidade sociocultural e seus papéis na formação do Brasil, além de apresentar abordagens pedagógicas e materiais didáticos para o trabalho em sala de aula.
A proposta formativa também busca valorizar os saberes indígenas, rompendo com a hierarquização entre conhecimentos universitários e tradicionais.
O lançamento no Abril Indígena reforça uma mensagem central: os povos indígenas não são apenas guardiões de uma herança cultural, mas protagonistas na produção de conhecimentos sobre território, sustentabilidade, medicina, pedagogia e convivência coletiva. Um dos depoimentos da publicação destaca que, mesmo representando uma parcela pequena da população brasileira, esses povos desempenham papel essencial na preservação da biodiversidade e na prática do chamado “bem viver”.
A pedagoga e analista de projeto de educação da Ação Educativa, Jessika Tenório, afirma que a iniciativa evidencia a capacidade de articulação da organização em diferentes territórios. Segundo ela, a revista projeta as vozes dos próprios povos indígenas e reforça a importância de reconhecer esses conhecimentos no campo da educação, ampliando o debate para além dos grandes centros e dando mais visibilidade a essas pautas na sociedade.
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