A nova resolução de capital mínimo do Banco Central do Brasil, divulgada no início desta semana, representa uma mudança estrutural no sistema financeiro brasileiro e deve provocar uma reorganização profunda do setor. A avaliação é de Carlos Akira Sato, co-founder da Syscapial e especialista em Mercados Regulados, para quem o movimento vai além de uma atualização prudencial e redefine as condições de crescimento das instituições.
Segundo Sato, o Banco Central está promovendo uma reconfiguração estrutural do ecossistema financeiro brasileiro. O especialista destaca que a nova metodologia altera o eixo central da expansão no sistema financeiro. Quando o regulador afirma que a nova metodologia de capital mínimo aumentará a resiliência do Sistema Financeiro Nacional e aproximará o Brasil das melhores práticas internacionais, o que ele está efetivamente dizendo é que crescimento sem capital não será mais tolerado. Para ele, o próprio diagnóstico do regulador indica impacto relevante sobre instituições de menor porte.
Os números projetados pelo Banco Central reforçam a dimensão da mudança regulatória. Até janeiro de 2028, 63% das instituições de pagamento, 81% das Sociedades de Crédito Direto (SCDs), 92% das Sociedades de Empréstimo entre Pessoas (SEPs), 83% das corretoras de câmbio, 64% das distribuidoras e 63% das administradoras de consórcio podem apresentar desenquadramento. Akira Sato classifica o cenário como transformação estrutural do mercado. Embora destaque que a deficiência representa cerca de 0,5% do patrimônio de referência do sistema, ele entende que o impacto microeconômico será significativo.
Na prática, o setor deve entrar em um ciclo de consolidação, profissionalização e concentração. Instituições menores tendem a ser incorporadas, vendidas ou a encerrar atividades, enquanto aumentam as exigências de governança, risco e capacidade de capitalização. O ambiente favorece grandes bancos, fintechs mais estruturadas e grupos com acesso recorrente ao mercado de capitais, prevê o especialista.
Um ponto destacado por Sato é que o Nubank, que possui cerca de 115 milhões de clientes e ultrapassou gigantes nacionais, é uma fintech (instituição de pagamento) e surgiu amparada pelas regras de capital anteriores. Para ele, esse movimento do Banco Central restringe a inovação no mercado financeiro.
O especialista também avalia possíveis efeitos secundários da medida, como a aceleração de estruturas de tokenização, securitização e modelos asset light. O Banco Central agora parece estar dizendo que escala sem resiliência prudencial não basta. Para Sato, o movimento aproxima o Brasil de uma tendência internacional pós-crises bancárias recentes, em que a inovação permanece permitida, mas condicionada a capital, liquidez e absorção de perdas.
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