Empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, confirmou à PGR ter realizado sete transferências que somam US$ 12,3 milhões ao fundo Havengate, nos Estados Unidos
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, homologou nesta quarta-feira o acordo de delação premiada do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, no âmbito das investigações sobre os repasses de dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, à produção do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Freixo Júnior é apontado como o responsável pelas transferências de recursos ao fundo Havengate, sediado no Texas, nos Estados Unidos. O fundo é administrado pelo advogado Paulo Calixto, que atuou como advogado do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, que atualmente reside no país norte-americano.
A homologação ocorreu um dia após a defesa do operador se reunir com a equipe do gabinete de Mendonça para confirmar a voluntariedade da delação. Durante a audiência, o empresário confirmou ao ministro que firmou o acordo de colaboração de maneira espontânea.
Os repasses confirmados
Segundo o relato do delator, foram realizadas sete transferências bancárias ao fundo Havengate ao longo de 2025, totalizando US$ 12,3 milhões, valor que correspondia a aproximadamente R$ 69 milhões no câmbio da época.
Os pagamentos foram feitos a pedido de Daniel Vorcaro, que contatou Freixo Júnior por meio de mensagens de WhatsApp entre o final de 2024 e o início de 2025. O empresário afirmou aos procuradores que não tinha conhecimento sobre a finalidade dos valores nem sobre a destinação final do dinheiro após as transferências.
De acordo com a delação, os recursos foram enviados na forma de subscrições de cotas do fundo. A solicitação inicial de Vorcaro previa o envio de aproximadamente US$ 24 milhões, que seriam operacionalizados em mais de dez transações entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. No entanto, apenas sete operações foram efetivamente realizadas, todas entre janeiro e setembro de 2025.
A estrutura do fundo e a conexão com Eduardo Bolsonaro
O fundo Havengate está no centro das investigações da Polícia Federal sobre o financiamento do filme Dark Horse. A apuração busca esclarecer se todo o dinheiro enviado ao fundo foi efetivamente empregado na produção cinematográfica ou se parte dos recursos teve outras finalidades.
Uma das linhas investigativas analisa a possibilidade de que parte dos recursos tenha sido destinada a despesas relacionadas à permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O ex-deputado nega ter recebido dinheiro de Vorcaro.
Em depoimento, Freixo Júnior relatou que foi contatado por Paulo Calixto, responsável pela administração fiduciária do fundo Havengate. As conversas levaram à assinatura de uma carta de compromisso entre o empresário e o gestor do fundo em janeiro de 2025.
A versão de Flávio Bolsonaro e as contradições
O caso envolve também o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República, que segundo investigações anteriores pediu dinheiro a Vorcaro para financiar o filme sobre o pai. O senador vem afirmando que os recursos do ex-banqueiro foram destinados integralmente à produção da obra.
No entanto, a delação de Freixo Júnior aponta a existência de um pagamento realizado em setembro de 2025, no valor de US$ 1,66 milhão. A operação contraria declarações anteriores de Flávio Bolsonaro, que afirmava que o último pagamento feito por Vorcaro havia ocorrido em maio daquele ano.
Informações divulgadas anteriormente indicavam que Flávio teria pedido US$ 24 milhões a Vorcaro, e que o banqueiro havia repassado pelo menos US$ 10,6 milhões. Com os pagamentos posteriores revelados pela revista Piauí, o montante total teria chegado aos US$ 12,3 milhões confirmados na delação.
Investigação sobre a rota do dinheiro
Além das transferências ao fundo Havengate, Freixo Júnior relatou às autoridades ter realizado uma série de transferências financeiras em dinheiro vivo, em malas, a pedido de Daniel Vorcaro. O empresário se apresenta no material como um operador financeiro do ex-banqueiro.
A empresa de Freixo Júnior, a Entre Investimentos, também enviou R$ 139 milhões a empresas investigadas pela Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro. As movimentações, que ocorreram entre julho de 2022 e dezembro de 2025, envolvem alvos suspeitos de ligação com um esquema de fraudes no setor de combustíveis, com a facção Primeiro Comando da Capital e com integrantes da máfia italiana.
O empresário foi alvo de busca e apreensão durante a Operação Compliance Zero, que investiga as atividades financeiras ligadas ao Banco Master. A delação é o primeiro acordo focado especificamente na engenharia financeira por trás da produção cinematográfica.
O filme e o cenário eleitoral
A cinebiografia Dark Horse será lançada apenas após as eleições, segundo decisão da distribuidora Europa Filmes. O diretor-geral da empresa, Wilson Feitosa, afirmou que uma experiência anterior com o lançamento em ano eleitoral de uma produção sobre o presidente Lula contribuiu para a decisão.
A produtora responsável pelo filme, Go Up Entertainment, contratou uma perícia particular para validar os gastos realizados. No entanto, o laudo não mapeou a origem dos recursos repassados pelo fundo Havengate para financiar o longa-metragem, análise considerada fundamental pela Polícia Federal.
O caso tramita em sigilo no Supremo Tribunal Federal, e a delação de Freixo Júnior deve aprofundar as investigações sobre a rota e a finalidade dos recursos financeiros que abasteceram o fundo americano.
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