Hormônios podem estar por trás da dificuldade para ter filhos
Quando um casal tenta engravidar e a gestação não acontece, a investigação muitas vezes começa pela mulher. Exames ginecológicos, ultrassonografias e avaliações hormonais costumam fazer parte das primeiras etapas. No entanto, a fertilidade masculina também depende de um complexo equilíbrio hormonal e, alterações neste sistema, podem comprometer a produção de espermatozoides mesmo quando o homem não apresenta sintomas aparentes.
A infertilidade é definida pela dificuldade de conseguir uma gravidez após 12 meses de relações sexuais regulares sem o uso de métodos contraceptivos. As causas podem estar exclusivamente no homem, exclusivamente na mulher ou em ambos. No caso masculino, entre os fatores que merecem atenção estão os desequilíbrios hormonais, que podem interferir diretamente no funcionamento dos testículos e na produção dos espermatozoides.
Testosterona não é sinônimo de fertilidade
Um dos principais equívocos relacionados à fertilidade masculina é associar níveis elevados de testosterona à maior capacidade reprodutiva. A relação, porém, é mais complexa. A produção de espermatozoides depende da comunicação entre cérebro, hipófise e testículos. Neste sistema, hormônios como LH e FSH estimulam o funcionamento testicular e participam da produção e da maturação dos espermatozoides. A testosterona também é fundamental para o processo, mas precisa estar presente no contexto adequado e, principalmente, ser produzida e regulada pelo próprio organismo.
“É justamente por isso que o uso de testosterona por conta própria ou de anabolizantes pode ter efeito contrário ao esperado. Quando o hormônio é administrado externamente, o organismo pode interpretar que há testosterona suficiente em circulação e reduzir os sinais hormonais enviados aos testículos. Com a diminuição de LH e FSH, a produção de espermatozoides pode cair significativamente”, avalia Izabelle Gindri, especialista em saúde hormonal, PhD em Engenharia Biomédica pela UTD (University of Texas, Dallas), farmacêutica, cofundadora e CEO da bio meds Brasil.
Assim, um homem pode apresentar níveis elevados de testosterona no exame de sangue e, ao mesmo tempo, ter baixa produção de espermatozoides. Isto ocorre porque a concentração do hormônio na circulação não representa necessariamente o que está acontecendo dentro dos testículos, onde ocorre a espermatogênese.
O eixo hormonal que controla a produção de espermatozoides
A fertilidade masculina depende do chamado eixo hipotálamo-hipófise-gonadal. De forma simplificada, o cérebro inicia os sinais hormonais que chegam à hipófise, que libera LH e FSH. Estes hormônios atuam nos testículos e ajudam a coordenar a produção de testosterona e de espermatozoides.
Quando alguma etapa deste sistema sofre interferência, a produção espermática pode ser prejudicada. Diante de alterações no espermograma, a avaliação médica pode incluir exames hormonais. Dependendo do caso, podem ser investigados testosterona, FSH, LH e outros marcadores. A interpretação destes resultados deve ser feita em conjunto com o histórico do paciente, exame físico e análise do sêmen. “O desequilíbrio hormonal pode ter diferentes origens. Doenças que afetam a hipófise ou os testículos, alterações metabólicas, obesidade, determinados medicamentos, uso de hormônios e anabolizantes e outras condições clínicas podem interferir nesta” regulação”, reforça Gindri.
Estresse, sono e metabolismo também entram na equação
O equilíbrio hormonal não funciona de maneira isolada. Estresse crônico, privação de sono, sedentarismo e alterações metabólicas podem influenciar o funcionamento do organismo e, consequentemente, a saúde hormonal e reprodutiva.
A exposição prolongada ao estresse, por exemplo, está relacionada à alterações nos mecanismos hormonais que regulam diferentes funções do corpo. Ansiedade e cansaço podem também reduzir a libido, prejudicar o desempenho sexual e diminuir a frequência das relações justamente durante o período em que o casal tenta engravidar.
O estresse, portanto, não deve ser apontado como causa isolada da infertilidade. A relação é mais complexa e precisa ser analisada dentro do conjunto de fatores hormonais, clínicos e comportamentais.
Excesso de peso também pode alterar o equilíbrio hormonal
Para Izabelle Gindi, o metabolismo e os hormônios sexuais estão intimamente relacionados. O excesso de gordura corporal pode favorecer alterações na produção e no metabolismo dos hormônios, incluindo a testosterona, e estar associado à piora de parâmetros relacionados à fertilidade.
O mesmo vale para hábitos como consumo excessivo de álcool e tabagismo, que podem prejudicar a saúde reprodutiva. “O uso de anabolizantes merece atenção especial porque, além dos efeitos sobre a composição corporal, pode interferir diretamente no sistema hormonal responsável pela produção dos espermatozoides. Cuidar da fertilidade masculina também significa cuidar do metabolismo, do sono, do peso corporal e do equilíbrio hormonal”, afirma a cientista.
O espermograma mostra o resultado, mas os hormônios ajudam a investigar a causa
O espermograma continua sendo um dos principais exames para avaliar a fertilidade masculina. Ele permite analisar características como concentração, mobilidade e morfologia dos espermatozoides. Quando os resultados apresentam alterações, porém, é importante investigar o que pode estar por trás delas e é aí que a avaliação hormonal pode ganhar relevância.
Uma concentração muito baixa de espermatozoides ou a ausência deles, pode estar relacionada a alterações na produção hormonal, problemas testiculares, obstruções, fatores genéticos ou uma combinação de causas. A varicocele, caracterizada pela dilatação das veias que drenam o sangue dos testículos, também pode comprometer a produção e a qualidade dos espermatozoides. Infecções e alterações genéticas igualmente podem estar envolvidas e devem ser investigadas quando houver indicação clínica.
A idade também influencia a saúde hormonal e reprodutiva
Embora homens possam produzir espermatozoides durante grande parte da vida, o envelhecimento está associado a mudanças na função reprodutiva. Com o avanço da idade, podem ocorrer alterações hormonais e mudanças na qualidade do sêmen, além do aumento de alguns riscos reprodutivos.
“Embora homens possam produzir espermatozoides durante grande parte da vida, a idade está associada a mudanças na qualidade do sêmen e pode aumentar alguns riscos reprodutivos. Isso reforça a importância de tratar a fertilidade como parte da saúde integral, e não apenas como uma preocupação no momento em que surge o desejo de ter filhos”, diz Gindri.
Fertilidade masculina não é sinônimo de potência sexual
Outro obstáculo para o diagnóstico é a resistência de alguns homens em procurar atendimento. A ideia de que infertilidade estaria relacionada à virilidade ou à capacidade sexual pode atrasar a investigação.
“Para alguns homens, admitir uma possível dificuldade reprodutiva ainda é confundido com questionar a própria masculinidade. Porém, a infertilidade não é sinônimo de impotência sexual. Um homem pode ter ereções e vida sexual normais e, ainda assim, apresentar alterações na produção ou na qualidade dos espermatozoides”, completa a especialista em saúde hormonal.
Cuidar da saúde hormonal é também cuidar da saúde reprodutiva. E, diante de dificuldades para engravidar, olhar para o homem desde o início e não apenas depois de descartar possíveis causas femininas pode fazer diferença para chegar ao diagnóstico e ao tratamento adequado.
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