Um brasileiro prestou depoimento em 2016 e alertou as autoridades nos Estados Unidos sobre a presença de “jovens meninas” relacionadas ao financista Jeffrey Epstein. A informação, agora revelada em documentos oficiais, foi mencionada pelo próprio Epstein em um email enviado a um colecionador de artes.
A declaração ocorreu em 13 de junho daquele ano. Epstein escreveu a Glenn Dubin, bilionário do mercado de arte, para comunicar o teor do depoimento. “Renaldo prestou depoimento e disse que eu levei jovens meninas em várias ocasiões para North Salem. Sem sentido, mas eu achei que você deveria saber”, afirmou o financista.
A grafia “Renaldo” era usada por Epstein para se referir ao brasileiro Reinaldo Avila da Silva, casado com o político britânico Peter Mandelson. O depoimento foi prestado no mesmo período em que Virginia Giuffre, uma das vítimas de Epstein, acusou Ghislaine Maxwell, então esposa do financista, de tê-la orientado a manter relações sexuais com Dubin. O bilionário sempre negou as acusações.
Epstein foi preso em 2019, três anos após o depoimento do brasileiro. Morreu em 10 de agosto daquele ano, em uma cela em Nova York, enquanto aguardava julgamento por acusações de abuso sexual de menores.
Os registros integram o conjunto de mais de 3 milhões de páginas divulgadas na semana passada pelo Departamento de Justiça dos EUA. Os arquivos trazem à tona também outras menções ao brasileiro e ao marido.
Negócios no Rio
Em 2010, Peter Mandelson recorreu a Epstein para obter aconselhamento sobre a compra de um apartamento de luxo no Rio de Janeiro. Em 7 de novembro daquele ano, Mandelson escreveu ao financista informando que havia enviado a solicitação ao seu banqueiro. “Agradeço pelas valiosas reflexões do meu principal conselheiro de vida”, escreveu o político britânico.
O imóvel, localizado na rua Joana Angélica, em Ipanema, tinha 225 metros quadrados e estava avaliado em R$ 5,3 milhões à época. Mandelson informou que o apartamento, caso adquirido, seria registrado em nome de Reinaldo Avila da Silva.
Epstein respondeu com questionamentos sobre a destinação do imóvel em caso de morte do brasileiro. “O que acontece se algo acontece com Renaldo…você fica com ele ou sua família”, indagou o financista.
Àquele momento, Epstein já havia cumprido pena de 13 meses de prisão por abuso de menor, mas mantinha o direito de permanecer seis dias por semana em seu escritório na Flórida, em razão de um acordo judicial.
Documentos também indicam que, em 2011, Epstein recebeu proposta para adquirir um imóvel na avenida Atlântica, ao lado do Copacabana Palace. Não há informação sobre a concretização do negócio.
Crise política no Reino Unido
A relação de Peter Mandelson com Epstein tornou-se foco de uma crise política no Reino Unido. O britânico ocupou cargos de alto escalão no governo de Londres, atuou como comissário de Comércio da União Europeia e chegou a ser nomeado embaixador do Reino Unido em Washington.
Documentos sugerem que Mandelson pode ter compartilhado informações confidenciais do governo britânico com o financista. O político foi afastado de funções, e a crise gerou desdobramentos no governo de Keir Starmer. Dois assessores do primeiro-ministro renunciaram, e cresce a pressão por uma saída do atual governo.
