Levantamento com 81,4 mil registros entre 2020 e 2026 mostra que 64,2% dos pacientes com estadiamento conhecido já estavam no estágio IV; entre aqueles com informação sobre o intervalo até o tratamento, 34,2% esperaram mais de 60 dias. Dados reforçam campanha Agosto Branco do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT), que alerta para barreiras da prevenção ao tratamento
Dos 50.098 registros de câncer de pulmão no SUS com informação sobre o estágio da doença entre 2020 e 2026, 44.042, ou 87,9%, correspondem aos estágios III ou IV, as fases mais avançadas. Somente no estágio IV, quando o câncer já se espalhou para outras partes do organismo, foram 32.162 casos, equivalentes a 64,2% daqueles com estadiamento conhecido. Os dados foram extraídos do Painel-Oncologia, do Ministério da Saúde e integram o alerta do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) para o Agosto Branco, mês de conscientização sobre o câncer de pulmão. No período analisado, o sistema contabilizou 81.421 registros da doença. Em 21.109, o estadiamento aparece como ignorado, enquanto em outros 10.214 consta como não aplicável. O levantamento deve ser interpretado considerando as limitações da base. Os dados do Painel-Oncologia são atualizados continuamente e os registros mais recentes ainda podem estar em processo de alimentação e consolidação. Além disso, o painel reúne informações provenientes dos sistemas de informação do SUS e está sujeito a limitações como campos sem preenchimento, dados ignorados ou não aplicáveis e diferenças na completude dos registros. Por isso, os números apresentados representam os casos disponíveis na base no momento da consulta e podem sofrer atualizações.
O cenário ajuda a dimensionar um dos principais desafios enfrentados pelo país diante de um tumor para o qual o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima cerca de 35.380 novos casos por ano no triênio 2026-2028. Para o GBOT, reduzir a mortalidade exige ampliar o acesso em diferentes pontos da jornada do paciente, da prevenção e do reconhecimento dos sinais de alerta ao diagnóstico precoce, cirurgia, radioterapia, testes moleculares e tratamentos adequados às características de cada tumor.
De acordo com o oncologista clínico Vladmir Cordeiro de Lima, presidente do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT), discutir acesso significa olhar para todas as barreiras que interferem no cuidado do paciente e não apenas para a disponibilidade de medicamentos. “Quando falamos em acesso, estamos falando de toda a jornada do paciente. Isso começa na informação e na prevenção, passa pelo diagnóstico em tempo oportuno, pela realização dos exames necessários, pela cirurgia, pela radioterapia, pelos testes moleculares e chega ao tratamento mais adequado para cada pessoa. Se qualquer uma dessas etapas falha, o resultado também é comprometido”, observa.
Diagnóstico avançado chega a 92,4% no Centro-Oeste
Os dados mostram que o diagnóstico em estágios avançados ocorre em todas as regiões, mas com diferenças importantes. Considerando somente os registros com estadiamento conhecido, 92,4% dos casos do Centro-Oeste estavam nos estágios III ou IV. No Norte, eram 89,7%; no Nordeste, 89,7%; no Sudeste, 88,4%; e no Sul, 84,9%. O estágio IV, isoladamente, representava 72,8% dos casos com estadiamento conhecido no Centro-Oeste, 66,3% no Norte, 65% no Sudeste, 64,4% no Nordeste e 60,8% no Sul.
A elevada proporção de doença avançada também aparece entre homens e mulheres. Entre os homens com estadiamento conhecido, 88,8% estavam nos estágios III ou IV. Entre as mulheres, eram 86,9%.Os números reforçam a necessidade de reduzir as barreiras que retardam a identificação do câncer de pulmão e a chegada do paciente aos serviços especializados.
Um em cada três espera mais de 60 dias para tratamento
As dificuldades não terminam com o diagnóstico. Entre 60.312 registros com informação sobre o intervalo até o tratamento, 20.607, ou 34,2%, indicavam espera superior a 60 dias. Outros 15.065 pacientes, 25%, iniciaram o tratamento entre 31 e 60 dias, enquanto 24.640, 40,9%, começaram em até 30 dias. Isso significa que 59,1% começaram o tratamento depois dos primeiros 30 dias. A demora também aparece entre pacientes diagnosticados em fases em que o tratamento pode ter intenção curativa. Entre os 2.012 registros de estágio I, 1.025, ou 50,9%, tiveram início do tratamento após mais de 60 dias. No estágio II, foram 1.385 dos 2.544 registros, ou 54,4%. Os dados chamam a atenção porque mostram que identificar o tumor em uma fase inicial é apenas parte do desafio. Para que o diagnóstico precoce se traduza em maior possibilidade de cura, é necessário que o paciente também consiga avançar rapidamente pelas etapas de investigação e chegar ao tratamento indicado.
Acesso à informação sobre prevenção
Embora o tabagismo continue sendo responsável pela maioria dos casos de câncer de pulmão, o GBOT pretende ampliar a discussão durante o Agosto Branco para outros fatores de risco ainda pouco conhecidos pela população. Entre eles estão exposições ocupacionais, poluição ambiental, fumaça de combustíveis utilizados no preparo de alimentos, radônio e outras substâncias potencialmente carcinogênicas, além da exposição passiva à fumaça do cigarro.
A entidade também dará continuidade às ações voltadas especificamente às mulheres. Os dados do Painel-Oncologia mostram que elas já representam parcela próxima à dos homens entre os registros analisados. Dos 81.421 casos contabilizados entre 2020 e 2026, 39.417, ou 48,4%, eram de mulheres, enquanto 42.004, ou 51,6%, eram de homens.
Segundo a oncologista clínica Samira Mascarenhas, presidente eleita do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT), ampliar o acesso à informação é uma estratégia tão importante quanto oferecer novas tecnologias. “Durante muitos anos o câncer de pulmão ficou restrito à mensagem do combate ao tabagismo, que continua sendo fundamental. Mas hoje sabemos que existem outros fatores de risco importantes, especialmente para algumas populações. Quanto mais as pessoas conhecem esses riscos e reconhecem os sinais de alerta, maiores são as chances de procurar atendimento em tempo mais oportuno”, afirma.
Acesso ao diagnóstico precoce
O predomínio de casos avançados reforça outro ponto considerado prioritário pelo GBOT, a ampliação do acesso ao diagnóstico precoce. Evidências científicas consolidaram a tomografia computadorizada de baixa dose como método capaz de reduzir a mortalidade entre pessoas com alto risco de desenvolver câncer de pulmão. O início de um estudo conduzido pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) para avaliar a implementação de um programa de rastreamento no Sistema Único de Saúde (SUS) é considerado um passo importante, mas especialistas ressaltam que o sucesso dessa estratégia dependerá da capacidade de transformá-la em uma política pública estruturada e acessível.
Para o GBOT, entretanto, o rastreamento representa apenas uma etapa. A identificação precoce de um nódulo pulmonar precisa ser acompanhada de acesso rápido aos exames complementares, à confirmação diagnóstica, à avaliação por equipes especializadas e ao tratamento adequado. Sem essa organização da linha de cuidado, o potencial da estratégia para reduzir a mortalidade fica comprometido. “O rastreamento não pode ser visto apenas como a realização de um exame. Ele precisa fazer parte de uma linha de cuidado organizada, que garanta o encaminhamento rápido para investigação, confirmação diagnóstica e início do tratamento quando necessário. É isso que realmente tem potencial para reduzir a mortalidade por câncer de pulmão”, afirma Samira Mascarenhas.
Para a oncologista, as barreiras ao diagnóstico começam muito antes da realização de exames mais complexos. Em muitos casos, o paciente enfrenta demora para conseguir consultas, realizar exames de imagem, obter a confirmação anatomopatológica da doença e chegar ao especialista. Esse intervalo pode representar a diferença entre um tumor ainda passível de tratamento curativo e um cenário de doença já disseminada. “Quando falamos em acesso ao diagnóstico, não estamos nos referindo apenas aos testes moleculares. Estamos falando do tempo entre o surgimento dos sintomas, a suspeita clínica, a realização dos exames, a confirmação do diagnóstico e o encaminhamento ao tratamento. Toda essa jornada influencia diretamente o prognóstico do paciente”, acrescenta.
Apenas 44% dos oncologistas do SUS relatam acesso regular a teste molecular para ALK
As desigualdades persistem quando o diagnóstico já foi estabelecido. Estudos publicados pelo GBOT na revista científica JCO Global Oncology mostram diferenças expressivas entre pacientes atendidos pelo SUS e pela saúde suplementar no acesso a exames moleculares e terapias-alvo, fundamentais para o tratamento de determinados subtipos de câncer de pulmão.
Um dos estudos mostrou que 43,9% dos oncologistas que atuam no SUS relataram acesso regular aos exames necessários para identificar alterações moleculares como ALK, diante de 93,9% na saúde suplementar, uma diferença de 50 pontos percentuais. Sem esses testes, pacientes que poderiam se beneficiar de medicamentos desenvolvidos especificamente para determinadas alterações do tumor podem deixar de ser identificados.
Outro estudo acompanhou 101 pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células com alteração no gene ALK. Na primeira linha de tratamento, 22,2% dos pacientes do SUS receberam terapia-alvo, menos da metade dos 53,9% observados na saúde suplementar.
A diferença também apareceu na sobrevida. Três anos após o diagnóstico, 61,4% dos pacientes atendidos no SUS estavam vivos, ante 87,2% na saúde suplementar, diferença de 25,8 pontos percentuais. Os resultados, acrescenta Samira Mascarenhas, mostram que os avanços da medicina de precisão ainda chegam de forma desigual aos brasileiros. “Hoje dispomos de tratamentos capazes de controlar a doença por mais tempo e oferecer melhor qualidade de vida para muitos pacientes. Mas esses benefícios dependem de uma sequência de etapas, que incluem o paciente chegar ao especialista, realizar os exames adequados, identificar a alteração molecular e, finalmente, ter acesso ao medicamento recomendado. Quando uma dessas etapas falha, todo o potencial da medicina de precisão fica comprometido”, conclui.
Acesso ao tratamento exige uma jornada completa
Os registros do Painel-Oncologia também ajudam a dimensionar as modalidades de tratamento registradas no SUS. Entre os 81.421 registros de 2020 a 2026, constam 42.149 registros de quimioterapia, 10.214 de cirurgia, 7.439 de radioterapia e 510 de quimioterapia e radioterapia combinadas. Outros 21.109 aparecem sem informação de tratamento. A cirurgia correspondeu, portanto, a 12,5% do total de registros, embora esse percentual não possa ser interpretado isoladamente como indicador de acesso, já que a indicação depende do estágio, das características do tumor e das condições clínicas do paciente. De acordo com o INCA, a indicação de cirurgia (isolada ou combidada com outros tratamentos) chega a 30% dos casos de câncer de pulmão, ao longo da jornada do paciente no SUS.
O tratamento do câncer de pulmão deixou de seguir um único caminho. Dependendo do estágio da doença e das características biológicas do tumor, o paciente pode se beneficiar de cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia, terapias-alvo ou da combinação dessas estratégias. Nos tumores diagnosticados precocemente, a cirurgia continua sendo uma das principais possibilidades de tratamento com intenção curativa, frequentemente associada à radioterapia ou ao tratamento sistêmico. Já nos casos localmente avançados ou metastáticos, a incorporação de novas modalidades terapêuticas ampliou as possibilidades de controle da doença e de ganho em sobrevida para diferentes perfis de pacientes.
Outro avanço importante foi a consolidação da oncologia de precisão, baseada na identificação de alterações moleculares específicas do tumor. Pacientes com alterações em genes como EGFR, ALK, ROS1, BRAF, MET, RET, KRAS e NTRK, entre outros, podem ser candidatos a terapias-alvo desenvolvidas para atuar sobre esses mecanismos biológicos. A indicação depende do perfil molecular identificado nos testes realizados a partir do tumor.
Para o GBOT, esse cenário reforça que o câncer de pulmão não é uma única doença e que ampliar o acesso ao tratamento significa garantir não apenas a disponibilidade de diferentes modalidades terapêuticas, mas também os exames necessários para definir qual delas é a mais apropriada para cada paciente.
Os números mostram que discutir acesso ao câncer de pulmão exige olhar para toda essa sequência. Quase 88% dos pacientes com estadiamento conhecido chegam aos estágios III ou IV, um em cada três registros com informação sobre o intervalo até o tratamento indica espera superior a 60 dias e estudos mostram diferença de 50 pontos percentuais no acesso regular a testes moleculares entre oncologistas do SUS e da saúde suplementar. Reduzir essas distâncias é essencial para que os avanços obtidos na prevenção, no diagnóstico e no tratamento se traduzam em melhores resultados para a população.
SOBRE O GBOT – O Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica foi idealizado por médicos oncologistas, clínicos e cirurgiões, com reconhecida expertise nessa área de atuação. Sua missão é produzir conhecimento científico na área da pesquisa clínica oncológica. Ao mesmo tempo, estimular os processos de educação na área do câncer e a geração de informações epidemiológicas que auxiliem na compreensão da realidade brasileira nesta área, possibilitando o desenvolvimento de estratégias que resultem numa melhoria dos resultados para a sociedade como um todo. Informações: https://www.gbot.med.br/.
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