A banda maranhense Basttardz lança nesta segunda-feira, 13 de julho, data em que se celebra o Dia Mundial do Rock, seu terceiro álbum de estúdio, intitulado “Tramas & Traumas”. O trabalho reúne oito faixas inéditas e foi concebido como uma obra conceitual que reflete sobre os impactos emocionais e sociais da vida contemporânea. O projeto acompanha a trajetória de um personagem confrontado com o caos do mundo moderno, abordando temas como desigualdade, consumismo, violência urbana e adoecimento mental.
O álbum já está disponível nas principais plataformas de streaming e também ganhou uma edição em vinil, produzida pelo selo maranhense Brisa Discos. Gravado no DOC Studio, em São Luís, o disco marca uma nova fase do quarteto e dá início a uma turnê nacional de divulgação, com 15 apresentações previstas nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país. A agenda amplia a circulação da banda, que já realizou uma série de shows por todos os estados do Nordeste e também apresentações na Região Norte.
A anatomia do caos
A narrativa do disco começa na faixa de abertura, “Tramas & Traumas”, quando sons de batimentos cardíacos anunciam a saída do protagonista de um estado de coma. A partir desse momento, ele atravessa uma sucessão de experiências que refletem os dilemas da sociedade contemporânea. Cada música representa um novo impacto provocado por essa realidade, conduzindo a narrativa até o desfecho, quando o personagem conclui que retornar ao coma parece menos doloroso do que permanecer consciente em um mundo marcado pela sobrecarga de informações, violência cotidiana e perda da sensibilidade coletiva.
O título sintetiza o conceito central da obra. As “tramas” representam os mecanismos que moldam a vida em sociedade, por meio da política, consumo, desigualdade, relações de poder e a permanente necessidade de sobrevivência em um cotidiano acelerado. Já os “traumas” simbolizam as marcas deixadas por esse processo sobre os indivíduos. A proposta é evidenciar que os conflitos externos inevitavelmente atravessam a experiência humana, afetando a maneira como as pessoas pensam, sentem e enfrentam a realidade.
Arquitetura da desordem
A dualidade entre razão e emoção também orienta a identidade visual do projeto, assinada pelo ilustrador paraense Magno Costa, conhecido como Ilustra Magno. A capa apresenta um cérebro transformado em uma cidade dominada por informações, vícios, consumo, disputas políticas e estímulos constantes. Na contracapa, um coração aparece representado como uma fábrica em colapso, cercada por tubulações, fumaça e engrenagens. As ilustrações funcionam como uma extensão da narrativa e simbolizam o esgotamento simultâneo da mente e do corpo.
Conhecida por abordar questões políticas em seus trabalhos anteriores, a Basttardz amplia essa perspectiva em “Tramas & Traumas”. Sem abandonar a crítica social, o grupo direciona o olhar para as consequências que esses conflitos produzem sobre o indivíduo, propondo uma leitura que parte da experiência humana diante das transformações do mundo contemporâneo.
Do despertar ao colapso
A sequência das músicas acompanha a evolução da narrativa. Após o despertar retratado na faixa-título, “Favela” questiona a ideia sintetizada pela expressão “Favela venceu”, contrapondo esse discurso à permanência das desigualdades vividas pelas populações periféricas.
Na sequência, “Diversão” transforma em hardcore a discussão sobre quem realmente tem direito ao lazer, à cultura e aos espaços de entretenimento. Inspirada pelo espírito contestador de “Comida”, dos Titãs, a música parte da ideia de que as pessoas não precisam apenas sobreviver, mas também acessar arte, cultura e momentos de lazer.
Em “Vitrine”, a banda volta sua atenção ao consumismo e à fabricação de desejos alimentados pela lógica do mercado. Já “Do Culto ao Lucro” apresenta uma crítica direta à mercantilização da fé e ao uso da religião como instrumento de enriquecimento.
Na reta final do disco, “Tarja Preta” questiona a medicalização excessiva da vida e o uso recorrente de medicamentos e outras substâncias como forma de anestesiar dores físicas e emocionais. A letra aborda a presença cada vez mais comum de ansiolíticos, antidepressivos e outras drogas no cotidiano, sugerindo uma sociedade que prefere anestesiar o sofrimento a enfrentá-lo. O texto dialoga com reflexões de Zygmunt Bauman e Michel Foucault ao retratar um cenário de controle, fragilidade social e crescente desumanização.
Em seguida, “Inconsciente Coletivo” denuncia o abandono e a invisibilidade de pessoas em situação de rua, especialmente crianças e adolescentes expostos à fome, à violência e à negligência. A metáfora do “coletivo” representa uma sociedade que segue seu caminho sem perceber aqueles que ficaram à margem, reforçando a indiferença diante do sofrimento alheio.
O encerramento acontece com “Desconstrução”, inspirada em “Construção”, de Chico Buarque. A música revisita a crítica social presente no clássico da MPB para refletir sobre o tempo presente, sugerindo que, em uma sociedade acostumada à repetição da violência e das tragédias, nem mesmo a morte é capaz de interromper a rotina ou despertar a sensibilidade coletiva.
Além da participação de Magno Costa na identidade visual, o álbum conta com colaborações especiais do DJ Alladin e de Bruxo do Sertão. O lançamento chega às plataformas digitais neste 13 de julho, reforçando a escolha simbólica do Dia Mundial do Rock para apresentar ao público o trabalho mais ambicioso da trajetória da Basttardz.
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