O Brasil chegou atrasado aos elos mais estratégicos da cadeia produtiva de veículos elétricos. É o que aponta um working paper do projeto DIP-BR (Decarbonization and Industrial Policy: Challenges for Brazil), iniciativa de pesquisa aplicada financiada pela Open Society Foundations e executada pelo Grupo de Indústria e Competitividade do Instituto de Economia da UFRJ (GIC/IE-UFRJ).
O relatório, assinado pelos professores Celio Hiratuka, Fernando Sarti, Antônio Carlos Diegues e Roberto Borghi, da Unicamp, analisa a transição dos veículos a combustão interna para alternativas de menor emissão, com foco nos elétricos a bateria (BEV) e nos híbridos plug-in (PHEV). O diagnóstico é que o país ainda depende fortemente de importações de componentes como baterias, motores elétricos e eletrônica de potência, com baixa integração produtiva local.
Segundo os pesquisadores, esse gap tecnológico se aprofundou após a forte contração do setor a partir de 2013, que reduziu investimentos e atrasou o desenvolvimento de capacitações domésticas em relação a outras experiências internacionais. Embora a transição global para elétricos possa ocorrer em ritmo mais lento do que o inicialmente previsto, com montadoras tradicionais adiando metas de eletrificação total, os pesquisadores alertam que postergar esse desenvolvimento representa um risco estrutural para a competitividade do setor no longo prazo.
Para superar o atraso, o estudo defende investimento ativo no desenvolvimento de competências tecnológicas nacionais em baterias e componentes críticos, mobilizando instituições científicas e tecnológicas (ICTs) e aproveitando as reservas minerais estratégicas do país, como lítio, níquel e grafite, como ativos para reduzir a dependência externa.
Ao mesmo tempo, os autores apontam que o Brasil tem vantagem comparativa real em soluções baseadas em biocombustíveis, especialmente etanol e biometano. Explorar mercados externos com essas tecnologias pode ser um caminho concreto para consolidar o país como referência em mobilidade sustentável além de suas fronteiras.
Virada no mercado interno
No mercado doméstico, a chegada das montadoras chinesas BYD e GWM provocou uma virada. A participação dos elétricos nas vendas saltou de 0,4% para 6,8% entre 2022 e 2025, com produção local já iniciada em regime de montagem progressiva. O movimento pressionou as incumbentes, Volkswagen, GM, Stellantis e Toyota, a acelerarem o desenvolvimento de híbridos flex, combinando eletrificação e etanol como resposta estratégica à concorrência chinesa. Parcerias entre grupos tradicionais e fabricantes chineses também emergem como caminho para acessar tecnologias avançadas e reduzir custos.
No segmento de veículos pesados, a liderança incipiente em ônibus elétricos, com destaque para a Eletra em parceria com a WEG nos motores, inversores e baterias, demonstra a capacidade de articulação industrial local quando há condições favoráveis.
Base privilegiada
Segundo os autores, o país parte de uma base privilegiada. A matriz elétrica majoritariamente renovável faz com que os veículos elétricos emitam menos carbono no Brasil do que em praticamente qualquer outro grande mercado. A experiência de décadas com biocombustíveis (do Proálcool à tecnologia flex fuel, passando pelo biometano) permite apostar em uma rota de descarbonização mais eclética, que não depende exclusivamente da renovação da frota para gerar impacto. A ampliação do uso de etanol e biometano atinge os veículos já em circulação.
O programa Mover, lançado em 2023, reforça esse caminho ao introduzir métricas de ciclo de vida completo e criar um marco regulatório articulado com a Lei do Combustível do Futuro e o RenovaBio. O país também possui elevado potencial de produção de biometano a partir de resíduos agrícolas, industriais e de aterros sanitários, uma oportunidade estratégica ainda pouco explorada para o transporte pesado.
Peso econômico
A indústria automotiva representa 6,5% do valor da transformação industrial brasileira e emprega diretamente 460 mil pessoas. O Brasil é o oitavo maior produtor e o sexto maior mercado automotivo do mundo. A forma como o país navegar essa transição definirá sua posição na cadeia global por décadas, e pode representar uma oportunidade de liderança em tecnologias limpas ou um novo ciclo de dependência tecnológica externa.
“O país, que vinha perdendo espaço na produção global, pode ter na revalorização de estratégias tecnológicas diversas uma oportunidade para recuperar relevância”, concluem os autores do estudo.
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