A paisagem que se descortina da janela de um trem em movimento nem sempre é composta apenas de mato, céu e rios. Há histórias, silêncios, encontros e sobrevivência. É essa camada invisível, mas pulsante, da Estrada de Ferro Carajás que a exposição “Paisagem na Janela – Um passeio de trem pela Amazônia” leva ao público de São Luís a partir do dia 25 de junho.
Em cartaz no Museu de Artes Visuais, no Centro Histórico da capital maranhense, a mostra reúne o trabalho do fotógrafo Tuca Reinés e do jornalista Chico Barbosa, que percorreram os estados do Pará e do Maranhão em 2025 para registrar, em imagens e palavras, a ferrovia para além de sua função logística. A entrada é gratuita e a visitação segue até 15 de julho.
O projeto nasceu de uma imersão documental que resultou no livro homônimo, publicado pela editora CBNEWS com recursos destinados à preservação da memória ferroviária, regulados pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e viabilizados em parceria com a Vale, concessionária da ferrovia. A iniciativa integra as comemorações dos 40 anos de operação do trem de passageiros da Carajás, inaugurado em 1986.
O percurso dos autores, no entanto, não se limitou ao traçado de aço. Ao longo dos trilhos, a reportagem em texto e fotografia deslocou o foco do transporte de minério e passageiros para uma narrativa mais humanizada. O leitor e o visitante da exposição encontram, assim, o cotidiano de trabalhadores, a memória de comunidades que tinham na estação seu único ponto de contato com o mundo exterior e a lida de quebradeiras de coco do Maranhão, cujas vidas se cruzam com a ferrovia sem que elas ocupem os vagões.
O jornalista Chico Barbosa, doutor em Comunicação e Semiótica e vencedor do Prêmio Jabuti, define a obra como um mergulho em um Brasil profundo. Para ele, o trem é o fio condutor, mas a trama é tecida pelas pessoas. “Trilhos, estações, paisagem e moradores contribuíram para a narrativa, que assume o ponto de vista de quem utiliza ou é impactado pela ferrovia”, afirma o autor, em texto que acompanha o projeto.
Já o olhar de Tuca Reinés, fotógrafo formado em arquitetura e com obras em acervos do MASP e do MAM, traduz a viagem como experiência sensorial. O artista destaca que a verdadeira beleza do percurso não está apenas na transição de biomas que se vê pela janela, mas nos encontros dentro e fora dos vagões, que transformam a travessia em um convite ao olhar.
Entre os registros históricos resgatados pela dupla, um episódio ganha relevo simbólico: a passagem da realeza britânica pela região em 1991, quando o então príncipe Charles e a princesa Diana plantaram uma castanheira, criando um elo afetivo e diplomático entre a Amazônia e o cenário internacional.
A exposição, que já passou por Marabá, no Pará, chega a São Luís com curadoria que privilegia a imersão visual e afetiva. O livro, produzido em formato coffee table table bilíngue, é direcionado a um público específico , autoridades, empresários, formadores de opinião e bibliotecas públicas, mas a mostra, aberta ao grande público, cumpre o papel de tornar acessível uma Amazônia íntima, pouco visível nos grandes noticiários.
O Museu de Artes Visuais fica na Rua Portugal, 273, na Praia Grande. A visitação ocorre de terça a sábado, das 9h às 17h, até o dia 15 de julho. Não é necessário agendamento.
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