O Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA) inaugura nesta quinta-feira (27) um capítulo inédito na história da educação pública estadual. A partir de agora, a comunidade de Oitiua, em Alcântara, passa a abrigar a primeira escola pública de ensino médio técnico em tempo integral implantada em território quilombola no Maranhão. Batizado de IEMA Pleno Quilombola de Alcântara, o equipamento representa a confluência entre a expansão da rede profissionalizante e o reconhecimento das especificidades culturais e sociais de uma das regiões com maior concentração de comunidades remanescentes de quilombos do país.
A unidade inicia suas atividades com 80 estudantes, distribuídos em duas turmas que conciliarão o ensino médio à formação técnica. As áreas escolhidas (Técnico em Agroecologia e Técnico em Informática para Internet) não foram definidas exclusivamente por critérios pedagógicos gerais. Em um movimento que antecipou a construção da escola, a gestão do IEMA promoveu uma audiência pública e diálogos diretos com os moradores de Oitiua. O objetivo foi alinhar a matriz curricular às demandas reais do território, casando o estímulo à inovação tecnológica com o fortalecimento de práticas tradicionais e sustentáveis.
A proposta pedagógica da instituição foi pensada para funcionar como ponte entre os saberes ancestrais e a ciência contemporânea. Enquanto os laboratórios de informática conectam os jovens ao universo digital, a abordagem da agroecologia busca valorizar e qualificar as atividades ligadas à terra, à agricultura familiar e à identidade cultural que moldaram a região ao longo de séculos de resistência.
Além das salas de aula, a estrutura do IEMA Quilombola de Alcântara conta com laboratórios voltados à formação científica, biblioteca, auditório, quadra poliesportiva, refeitório e espaços pedagógicos destinados a projetos de pesquisa e manifestações culturais. A programação de inauguração prevê um espaço cultural que celebrará essa integração, com apresentações de Caixeiras do Divino, Tambor de Crioula e Capoeira, expressões que sintetizam a memória e a identidade dos povos quilombolas maranhenses.
A concretização do projeto remonta a 2024, quando foi assinada a ordem de serviço para a construção da unidade. Na ocasião, uma agenda institucional em Alcântara reuniu o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, o governador do Maranhão, Carlos Brandão, e a diretora-geral do IEMA, Cricielle Muniz. O evento já sinalizava o peso simbólico da empreitada, com a gestora do instituto sendo apontada à época como representante do compromisso com a inclusão social e a valorização das comunidades tradicionais.
Para Cricielle Muniz, a inauguração desta quinta-feira transcende a entrega de uma obra. Em sua avaliação, o IEMA em Oitiua é a materialização de uma política pública que busca reparar uma dívida histórica com a juventude quilombola.
“A chegada do IEMA a uma comunidade quilombola é um momento histórico para o Maranhão. Estamos levando educação pública de qualidade, ciência, tecnologia e oportunidades para jovens que muitas vezes tiveram o acesso a essas possibilidades negado ao longo da história. Mais do que construir uma escola, estamos construindo caminhos para que essa juventude possa sonhar, estudar e transformar a realidade de seus territórios”, afirmou a diretora.
Ela também destacou o processo de escuta ativa que antecedeu a definição dos cursos. “Esse IEMA nasce do diálogo com a comunidade de Oitiua. Os cursos foram definidos ouvindo as pessoas que vivem aqui, respeitando seus saberes, suas tradições e suas potencialidades. Nosso objetivo é que os estudantes se reconheçam nesse espaço e que o conhecimento produzido dentro da escola contribua para fortalecer o território quilombola.”
A implantação da unidade em Alcântara reforça a estratégia de interiorização e interiorização com recorte social adotada pelo Governo do Estado. A iniciativa integra a política educacional liderada pelo governador Carlos Brandão e contou com a articulação do secretário de Assuntos Municipalistas, Orleans Brandão, para viabilizar a parceria entre o estado e o município. Atualmente, a rede IEMA soma 58 unidades implantadas em 44 cidades maranhenses, consolidando-se como uma das principais referências em educação profissional e tecnológica no país – notabilizando-se tanto por projetos de robótica educacional e inovação quanto pela expansão do acesso ao ensino técnico.
Com a nova unidade em Oitiua, o instituto dá um passo além na missão de democratizar o conhecimento. Em um território que abriga mais de uma centena de comunidades quilombolas, a escola de tempo integral chega para transformar a paisagem educacional da região, oferecendo a 80 jovens e suas famílias o que a diretora-geral do IEMA classificou como a principal ferramenta para a transformação social: a possibilidade de sonhar e construir o futuro sem precisar deixar suas origens para trás.
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