Um estudo conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) acaba de abrir uma nova perspectiva para o diagnóstico da hanseníase no Brasil. A estratégia, que combina um exame de sangue, um questionário clínico e uma ferramenta de inteligência artificial, mostrou potencial para detectar a doença em estágios iniciais, muito antes de os sintomas se tornarem evidentes.
Publicado na revista BMC Infectious Diseases, o trabalho teve apoio da FAPESP e foi coordenado pelo pesquisador Marco Andrey Frade. A proposta é suprir uma lacuna histórica no combate a uma das enfermidades mais antigas da humanidade, mas que ainda carece de tecnologias laboratoriais sensíveis. “Ainda faltam tecnologias laboratoriais sensíveis para o diagnóstico precoce e muitos profissionais de saúde não estão devidamente preparados para reconhecer as formas iniciais da doença”, explica o biomédico Filipe Lima, um dos autores.
Para testar o novo método, os cientistas usaram amostras de sangue já coletadas durante um inquérito populacional sobre covid-19 em Ribeirão Preto. Dos cerca de 700 participantes originais, 224 aceitaram responder a um questionário digital de suspeição de hanseníase (QSH), composto por 14 perguntas focadas em sinais neurológicos. Desses, 195 também tiveram amostras de sangue analisadas. Todos foram convidados para uma avaliação clínica presencial com especialistas – etapa fundamental para a confirmação diagnóstica.
O exame de sangue desenvolvido pelos pesquisadores detecta anticorpos contra o antígeno Mce1A, uma proteína-chave do Mycobacterium leprae, o bacilo causador da doença. Diferentemente do teste tradicional, que busca apenas o antígeno PGL-I e costuma positivar só nas formas mais graves, o novo método analisa três classes de anticorpos (IgA, IgM e IgG). “O Mce1A permite identificar o contato com o bacilo e a doença ativa de forma muito mais precoce”, afirma Lima.
Dos 37 participantes que compareceram à consulta presencial, os pesquisadores diagnosticaram 12 novos casos de hanseníase – o equivalente a cerca de um terço do grupo. “São pessoas que não tinham sintomas evidentes, não suspeitavam que estavam doentes e foram diagnosticadas graças ao projeto”, destaca o biomédico.
Entre os exames laboratoriais, o anticorpo IgM contra o Mce1A foi o de melhor desempenho, identificando dois terços dos novos casos. Quando os resultados foram cruzados com a ferramenta de inteligência artificial chamada MaLeSQs, o método atingiu 100% de sensibilidade, ou seja, conseguiu sinalizar todos os casos suspeitos que depois foram confirmados na consulta presencial.
O exame de sangue, por si só, não confirma o diagnóstico, mas funciona como um eficiente filtro para indicar quem deve ser avaliado por um especialista. Segundo os pesquisadores, a técnica é de baixo custo, fácil execução e pode ser realizada por qualquer laboratório de análises clínicas. “Do ponto de vista laboratorial, são técnicas muito semelhantes, de baixo custo e fácil execução. Na prática, o que muda é apenas a molécula analisada”, explica Lima.
O Brasil ocupa atualmente a segunda posição global em número de casos de hanseníase, atrás apenas da Índia, e responde por cerca de 90% das notificações das Américas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 200 mil novos casos são registrados anualmente no mundo, sobretudo em países de renda média e baixa.
Na fase inicial, os sintomas incluem formigamento, câimbras, dormência e áreas da pele com sensibilidade reduzida. Nesse estágio, exames tradicionais como a baciloscopia – que tenta identificar a bactéria diretamente na pele – costumam dar negativo. “Mais de 60% dos nossos pacientes podem ter exames negativos, mesmo estando doentes”, diz Lima.
Os pesquisadores também utilizaram um mapa de georreferenciamento para analisar a distribuição espacial dos casos identificados. O resultado mostrou um padrão difuso de exposição ao bacilo, sem concentração em regiões específicas. “Hoje vemos a doença diagnosticada em pacientes de diferentes perfis socioeconômicos”, afirma o biomédico.
O próximo passo da equipe é avançar na validação das ferramentas para uso em larga escala, com o objetivo de incorporá-las ao Sistema Único de Saúde (SUS) e à atenção básica. Paralelamente, os pesquisadores trabalham em uma nova etapa para aumentar a especificidade do marcador Mce1A. “Agora estamos estudando pequenas partes dessa mesma proteína para avaliar se é possível desenvolver um teste ainda mais sensível e com maior acurácia”, conclui Lima.
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