Um levantamento inédito revela que as mulheres negras continuam ocupando a base da pirâmide econômica e social no Brasil, concentrando os piores índices de renda, formalização trabalhista, ocupação e acesso à infraestrutura urbana. Os dados fazem parte do Índice de Justiça Econômica Racial (IJER), divulgado pelo Fundo Agbara, com apoio da Fundação Volkswagen e co-realização da ActionAid. O indicador foi desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa e Memória da Mulher Negra (NUPEMN) da organização e analisa dados nacionais coletados entre os anos de 2016 e 2023.
A pesquisa cruza indicadores de educação, renda, trabalho, moradia e infraestrutura sob uma perspectiva que conecta raça e gênero. O estudo aponta que, embora o Brasil tenha avançado em diversos indicadores sociais nos últimos anos, as melhorias gerais não alteraram de forma estrutural as desigualdades raciais e de gênero, mantendo os avanços distribuídos de maneira desigual.
De acordo com o levantamento, construído a partir de microdados da PNAD Contínua do IBGE e dados do Ipea, as mulheres negras receberam, em média, apenas 59% do rendimento dos homens no ano de 2022. Quando a comparação é feita com homens brancos, a diferença dobra. Mulheres negras vivem com praticamente metade da renda domiciliar per capita destes: R$ 1.191,66 contra R$ 2.381,43.
Desemprego e informalidade
No mercado de trabalho, a vulnerabilidade desse grupo se manifesta na informalidade e na desocupação. Em 2023, a taxa de desemprego entre as mulheres negras atingiu 10,8%, o que representa mais que o dobro do percentual registrado entre os homens brancos, que ficou em 4,8%. O acesso ao emprego formal também é menor. Apenas 33,3% das mulheres negras possuíam carteira assinada no setor privado, índice inferior ao verificado entre mulheres brancas (37,4%) e homens brancos (40,4%).
O IJER também evidencia a permanência de uma divisão racializada nas ocupações. No ano de 2023, 12,4% das mulheres negras atuavam no trabalho doméstico sem carteira assinada, enquanto o mesmo setor ocupava apenas 0,4% dos homens brancos. Ao todo, 48% das mulheres negras seguiam concentradas no emprego doméstico, o que demonstra, segundo a pesquisa, que o aumento da participação feminina negra no mercado de trabalho não veio acompanhado de valorização profissional ou de melhores condições de trabalho.
A jornada do cuidado não remunerado é outro eixo central abordado no documento. As mulheres realizam 65% desse tipo de trabalho no Brasil. Se essa atividade fosse contabilizada economicamente, ela acrescentaria aproximadamente 13% ao Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Na divisão interna, as mulheres negras dedicam, em média, 22,3 horas semanais aos afazeres domésticos e de cuidado, tempo superior às 21 horas dedicadas por mulheres brancas e significativamente maior que as 11 horas despendidas pelos homens.
Precariedade habitacional e racismo ambiental
As desigualdades profundas também se estendem às condições de moradia e saneamento básico. Mulheres negras têm até três vezes mais probabilidade de residir em domicílios sem banheiro do que as mulheres brancas. A maioria delas, entre 71% e 75%, vive em habitações com apenas um banheiro, enquanto entre as mulheres brancas esse índice varia de 55% a 59%.
O esgotamento sanitário inadequado atinge 31,6% das mulheres negras, proporção muito superior à observada na população de mulheres brancas, que é de 20,7%. O estudo ressalta ainda que as mulheres negras apresentam mais que o dobro de exposição ao descarte de esgoto em valas abertas na comparação com a população branca.
No ambiente doméstico, a falta de infraestrutura persiste. Em 2023, 37% das mulheres negras não possuíam máquina de lavar roupa em casa, face a 15% das mulheres brancas. O acesso a geladeiras de maior porte, internet e coleta regular de lixo também se manteve inferior para a população negra.
O relatório conclui que essas assimetrias habitacionais e urbanas refletem um padrão histórico de exclusão territorial associado ao conceito de racismo ambiental. O termo explica como as populações negras e periféricas sofrem de forma desproporcional os impactos da precariedade urbana, da falta de saneamento, da insegurança alimentar e dos efeitos das crises climáticas. A análise defende que os indicadores tradicionais, como PIB, IDH e Índice de Gini, não são suficientes para capturar a complexidade dessas desigualdades estruturais.
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