O câncer de pulmão, líder mundial em incidência e mortalidade, tem sua complexidade genética desafiada por um estudo conduzido no Brasil. Ao analisar amostras tumorais de 1.131 pacientes atendidos no Hospital de Amor, nas unidades de Barretos (SP) e Porto Velho (RO), pesquisadores identificaram que mutações no gene TP53 (conhecido como o “guardião do genoma”) não apenas estão entre as mais frequentes, mas também influenciam diretamente o prognóstico e a resposta aos tratamentos mais modernos.
Publicado em abril na revista The Lancet Regional Health Americas, o trabalho contou com apoio da FAPESP. Um de seus diferenciais foi o tamanho da amostra e a diversidade geográfica dos participantes, provenientes de todas as cinco macrorregiões do país, incluindo uma parcela expressiva da Amazônia Ocidental, grupo ainda pouco representado em pesquisas da área.
Os resultados mostram que 88% dos pacientes avaliados apresentam alguma alteração genética relevante no tumor. As mutações mais frequentes ocorreram nos genes TP53 (58% dos casos), KRAS (25,6%), EGFR (20,6%) e ALK (6,6%). Entre os indivíduos com maior ancestralidade africana, as mutações no TP53 foram mais comuns, achado que se alinha a observações internacionais.
O TP53 atua na defesa celular, reparando danos no DNA ou eliminando células mutadas. É o gene mais frequentemente alterado em tumores humanos, presente em cerca de metade de todos os cânceres. No entanto, tradicionalmente ele não era usado para orientar decisões médicas nem incluído em laudos e prontuários de pacientes com câncer de pulmão.
A novidade do estudo brasileiro foi demonstrar que o perfil genético do tumor impacta a evolução da doença. Os dados indicaram que a presença de mutações no TP53 foi associada a pior prognóstico, especialmente entre pacientes que também tinham alterações no gene EGFR. Mesmo recebendo a terapia-alvo direcionada ao EGFR (medicamentos projetados para atacar alterações moleculares específicas das células cancerígenas), esses pacientes evoluíram de forma menos favorável.
Com base nesse achado, a conduta no Hospital de Amor já começou a mudar. O TP53 passou a ser incorporado à rotina de análise, e a informação passou a orientar a escolha terapêutica. Um paciente com mutação simultânea em EGFR e TP53, por exemplo, pode ser considerado candidato ideal para novos ensaios clínicos, já que responde pior à terapia padrão.
Apesar dos avanços da oncologia de precisão, o acesso a testes genéticos ainda é restrito no Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, a maioria desses exames não é financiada publicamente. Recentemente, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) aprovou o financiamento isolado da verificação do gene EGFR, mas o estudo reforça a importância de uma análise mais ampla.
Sem um teste genético abrangente, o tratamento escolhido pode ser inadequado. As terapias-alvo custam entre R$ 20 mil e R$ 40 mil por mês, enquanto testes genéticos mais amplos podem variar de R$ 2 mil a R$ 8 mil. Para os pesquisadores, os achados têm potencial para orientar políticas públicas ao indicar quais mutações são mais frequentes na população brasileira e, portanto, quais exames e terapias deveriam ser priorizados.
Cerca de 12% dos pacientes avaliados não apresentaram mutações conhecidas, o que sugere a existência de outros genes envolvidos no desenvolvimento do câncer ainda não identificados. O próximo passo previsto é ampliar o estudo incluindo o genoma completo para investigar esses casos. Outra perspectiva é o desenvolvimento de terapias-alvo voltadas diretamente ao TP53, para reativar sua função e ampliar as opções de tratamento no futuro.
O artigo completo, intitulado “Clinical and molecular characterization of a large Brazilian lung cancer cohort: a real-world observational study”, pode ser lido no site da The Lancet Regional Health Americas.
Leia outras notícias em recordnewsma.com. Siga a Record News MA no Instagram, curta nossa página no Facebook e se inscreva em nosso canal no Youtube. Envie informações e denúncias através do nosso WhatsApp (98) 99100-8186.



