O depoimento de um garimpeiro à Polícia Federal revela o impacto das operações de combate à mineração ilegal na Terra Indígena Yanomami (TIY) nos últimos dois anos. “Tá muito difícil entrar lá. Eles [a polícia] tá todo dia lá dentro. Quando a gente menos espera, eles aparecem”, relatou o invasor, em registro ao qual a reportagem teve acesso. A fala resume a mudança na dinâmica da região desde a intensificação das ações federais.
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O marco inicial da atual cronologia de enfrentamento ao garimpo ilegal foi janeiro de 2023, após a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Roraima. Na ocasião, o governo federal classificou a situação na terra indígena como uma grave emergência sanitária e humanitária, caracterizada pelo avanço do garimpo ilegal, pelo aumento dos casos de malária, pelos altos índices de desnutrição e pela presença maciça de invasores.
A partir desse diagnóstico, o governo estruturou uma resposta permanente, que culminou, em fevereiro de 2024, com a criação da Casa de Governo em Roraima, formalizada pelo Decreto nº 11.930. O órgão passou a coordenar a atuação integrada de diferentes instituições federais nas ações de desintrusão. Paralelamente, o Decreto nº 11.405 autorizou a criação da Zona de Identificação de Defesa Aérea (ZIDA 41) sobre o espaço aéreo da região, permitindo à Aeronáutica intervir contra aeronaves suspeitas de atividades ilícitas.
Balanço das ações
Com a instalação da Casa de Governo, foi montado um sistema permanente de coordenação, com reuniões diárias entre ministérios, forças de segurança e órgãos ambientais. O Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) passou a monitorar a área por satélite, identificando focos de garimpo, pistas clandestinas e as rotas dos invasores.
Entre março de 2024 e março de 2026, foram realizadas 9.623 ações de combate ao garimpo ilegal dentro da TIY. O balanço aponta a inutilização de 808 acampamentos, 2.050 motores, 46 aeronaves, 10 dragas de grande porte, 185 antenas de internet via satélite e 191 toneladas de cassiterita. O prejuízo estimado às estruturas da mineração ilegal ultrapassa R$ 663 milhões.
O efeito mais significativo, segundo os dados oficiais, foi a redução de aproximadamente 98,9% da área de garimpo ativo dentro da Terra Indígena entre 2024 e março de 2026. O resultado é atribuído à estratégia de presença permanente do Estado, bloqueio logístico e atuação integrada das instituições.
Apreensões e bloqueio de rotas
A estratégia de sufocamento logístico do garimpo refletiu-se nas apreensões. Ao longo de 2024, as operações na TIY inutilizaram 1.095 motores, 129 mil litros de óleo diesel, 22 aeronaves e 421 acampamentos, com prejuízos estimados em R$ 267 milhões apenas no primeiro ano de atuação da Casa de Governo.
No mesmo período, a Polícia Federal apreendeu 226 quilos de mercúrio no município de Bomfim, na fronteira com a Guiana, rota usada para a entrada do insumo no garimpo. Apenas em ouro, as apreensões somaram 32 quilos, sendo 21 quilos retidos pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em novembro, na BR-174, e 11,7 quilos apreendidos pela PF no Aeroporto Internacional de Boa Vista ao longo do ano.
Em 2025, as operações foram ampliadas. Foram inutilizados 836 motores, 337 acampamentos, 19 aeronaves e 10 quadriciclos. A PRF reforçou a fiscalização nas rotas de escoamento e apreendeu 215 quilos de ouro transportados sem comprovação de origem.
Presença permanente no território
A Força Nacional mantém presença fixa em bases operacionais distribuídas pela região, como Parafuri, Parima, Waikás, Surucucu e Homoxi, entre outras 17 localidades. A presença dos agentes visa garantir a segurança das comunidades indígenas e das equipes de saúde que atuam nas aldeias.
A Marinha do Brasil realiza patrulhamento fluvial no rio Catrimani, enquanto o Exército inaugurou, em janeiro de 2025, o Destacamento Especial de Fronteira (DEF) de Waikás, intensificando as patrulhas no rio Uraricoera. O controle aéreo é reforçado por um contrato da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) que, desde o início das operações, acumulou 2.466 horas e 16 minutos de voo em missões de fiscalização e monitoramento.
A articulação das ações é coordenada pela Casa de Governo, que reúne instituições como Forças Armadas, Força Nacional, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Funai, Ibama, ICMBio, Agência Nacional do Petróleo (ANP), Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Censipam e Agência Brasileira de Inteligência (Abin).
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