A cada nova alta nas gôndolas dos supermercados, o brasileiro se acostumou a ouvir explicações que apontam para vilões pontuais: a seca que queimou as lavouras, a geada que dizimou as safras ou a disparada do dólar que travou as importações. Mas por trás do vaivém das manchetes, um fenômeno mais profundo e silencioso tem tornado o prato do país cronica e estruturalmente mais caro, especialmente quando se trata de comida de verdade.
É o que revela um estudo inédito conduzido pelo economista e doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Valter Palmieri Júnior, e publicado pela ACT Promoção da Saúde. A pesquisa enterra a tese de que a carestia na mesa do brasileiro seria fruto apenas de intempéries sazonais e descreve um sistema de fatores interdependentes que há décinas privilegia a exportação de commodities em detrimento do abastecimento interno.
De acordo com o levantamento, a inflação dos alimentos no país não é um acidente de percurso, mas uma decorrência direta do modelo agroexportador adotado como padrão de desenvolvimento. Ao direcionar recursos produtivos, crédito e terras para o que vai ser vendido lá fora, o mercado interno fica refém de uma lógica que desabastece a própria população e pressiona os preços de itens básicos da cesta do brasileiro, como arroz, feijão, frutas e hortaliças.
“A inflação de alimentos no Brasil decorre de um conjunto de fatores inter-relacionados que ajudam a explicar por que ela tem sido, nas últimas décadas, superior à inflação geral”, afirma Palmieri Júnior, que detalha no trabalho as engrenagens políticas e econômicas que ditam os preços nas prateleiras.
O resultado desse arranjo é um movimento perverso que altera o cardápio dos lares mais pobres. Enquanto os alimentos in natura e minimamente processados acumulam aumentos sistemáticos acima da inflação geral, os ultraprocessados ficam relativamente mais baratos, criando um incentivo econômico para escolhas que comprometem a saúde.
O estudo calcula o impacto direto no bolso do consumidor. Se uma pessoa destinasse 5% do salário mínimo para comprar alimentos em 2006, hoje, com essa mesma proporção, ela conseguiria levar mais produtos ultraprocessados e menos alimentos saudáveis. Entre 2006 e 2026, o poder de compra para frutas caiu cerca de 31%, um dos índices mais expressivos da perda de acesso a uma dieta balanceada.
Para a ACT, organização que publicou a pesquisa, a abordagem vai além de análises simplificadas ao expor uma teia de fatores que se influenciam mutuamente. Marília Albiero, gerente de inovação e estratégia da entidade, destaca que esse diagnóstico sistêmico qualifica o entendimento do problema e reforça a urgência de respostas à altura.
“Essa abordagem sistêmica amplia a compreensão dos mecanismos que sustentam o problema e qualifica o diagnóstico. Nesse sentido, reforça a importância de dar continuidade e aprimorar as políticas públicas existentes, e ao mesmo tempo chama atenção para a necessidade de soluções inovadoras capazes de responder às demandas atuais da sociedade e do planeta”, diz Albiero.
Além da prioridade ao mercado externo, o estudo aponta outros pilares que sustentam o encarecimento crônico da comida. A ausência de políticas públicas consistentes para a agricultura familiar e a alta concentração econômica em toda a cadeia produtiva (do campo à distribuição) comprimem margens e repassam custos ao consumidor final.
Para reverter esse quadro, a pesquisa propõe uma reconstrução institucional dividida em frentes interdependentes. Entre as medidas estão o fortalecimento da base produtiva nacional com ampliação de crédito e acesso à terra, o fomento à concorrência para enfrentar a concentração de mercado e a retomada de estoques públicos como forma de reequilibrar o abastecimento doméstico diante da voragem exportadora.
O estudo conclui que controlar a inflação da comida exige, antes de tudo, tratar a alimentação como um eixo central das políticas de Estado, superando a lógica focada exclusivamente na rentabilidade e no comércio exterior.
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