Os vídeos conhecidos como “novelas das frutas”, apesar da aparência colorida e até infantil, têm gerado preocupação entre especialistas. Produzidos com o uso de inteligência artificial, os conteúdos viralizam nas redes sociais e muitas vezes apresentam cenas de agressividade, relações tóxicas e preconceito. O alerta é direcionado principalmente ao público infantil, que pode ser impactado negativamente por esse tipo de material.
De acordo com o psicólogo e neuropsicólogo Lucas Alexandre, o fenômeno viralizou especialmente no TikTok e no Instagram. Ele explica que esses conteúdos podem afetar a autoestima da criança, provocar comparações e gerar ansiedade. Como as redes sociais incentivam a comparação e a necessidade de pertencimento a um grupo, há risco de desenvolvimento de quadros de ansiedade e outros transtornos mentais.
O especialista também aponta riscos de sexualização precoce e banalização de temas adultos. Ele menciona o fenômeno chamado over cherrying, que se refere ao excesso de exposição, além do cyberbullying e da erotização precoce. Do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento, crianças e adolescentes ainda não têm identidade e personalidade plenamente formadas. Por isso, o consumo inadequado desse tipo de conteúdo pode afetar a saúde mental, as relações interpessoais e o comportamento no ambiente escolar e familiar.
Sobre como os pais podem identificar possíveis prejuízos emocionais, Lucas Alexandre recomenda que não haja proibição severa nem atitude punitiva. A orientação é monitorar, ensinar qual tipo de conteúdo deve ser consumido e estabelecer um diálogo assertivo. Sem essa comunicação segura, a criança tende a não compartilhar o que está vivenciando. O excesso de exposição, em qualquer sentido, é considerado ruim. A necessidade de pertencimento pode levar a criança ou o adolescente a mentir ou a tentar se mostrar mais maduro para o grupo, gerando comportamentos autolesivos, ideações suicidas, ansiedade generalizada e quadros depressivos.
O papel da escola, segundo o neuropsicólogo, inclui promover palestras, debates e capacitar professores para identificar indicadores de sofrimento relacionados ao consumo de redes sociais. À família cabe fornecer rede de apoio, acolhimento, comunicação assertiva e buscar acompanhamento psicológico quando necessário. O uso das redes sociais potencializa completamente esses riscos.
Para abordar o assunto com a criança, o primeiro passo indicado é procurar ajuda profissional para definir a abordagem e a linguagem mais adequadas. A figura dos pais não deve ser a de um policial ou alguém punitivo, pois isso leva a criança a se fechar. O psicólogo pode atuar como mediador e facilitador da comunicação entre pais e filhos. O bloqueio na relação é comum, especialmente na adolescência, fase de muitas descobertas, puberdade e construção da identidade.
O controle absoluto sobre o consumo desses vídeos é considerado muito difícil. A sugestão é que os pais orientem a criança ou adolescente a tornar o perfil privado, restringir o acesso e só aceitar pessoas conhecidas. Isso porque códigos como os emoticons usados nas novelas das frutas podem servir como porta de entrada para assediadores e abusadores, que identificam esses sinais para abordar a criança, muitas vezes sem que ela compreenda a real intenção por trás do código. A aparência colorida e atrativa desses conteúdos chama a atenção das crianças, o que aumenta a preocupação.
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