A população feminina está cada vez mais se posicionando na sociedade, movida pelo desejo de transformar realidades desafiadoras com um objetivo claro: conquistar o próprio negócio e alcançar a independência financeira. O número de mulheres em situação de fragilidade cresce de forma acelerada, e a dependência econômica continua sendo um fator que limita sua liberdade e autonomia. Essas mulheres enfrentam diariamente obstáculos que afetam diretamente seu bem-estar e suas oportunidades de vida, como acesso limitado à educação, pobreza e desigualdades estruturais. Ainda assim, mesmo diante desse cenário de vulnerabilidade, muitas estão reconstruindo suas trajetórias, encontrando no empreendedorismo um caminho de fortalecimento pessoal e liberdade financeira.

No Maranhão, 81% da população é negra, mais de 56% das mulheres vivem abaixo da linha da pobreza, e cerca de 70% dos empreendimentos informais nos bairros periféricos são liderados por mulheres negras. Esses números revelam um cenário em que o empreendedorismo feminino negro não é apenas uma opção econômica, mas uma estratégia de sobrevivência diante da precariedade estrutural. Nesse contexto, mulheres negras assumem papel central na economia local, mesmo enfrentando múltiplas camadas de vulnerabilidade social.
Mulheres que já passaram por algum tipo de vulnerabilidade necessitam de atenção especial em relação à integridade física e emocional. Esse cuidado é essencial para o seu processo de transformação. O empreendedorismo permite que mulheres que já passaram por estágios de vulnerabilidade retomem o controle de suas próprias vidas, gerando o sentimento de capacidade e valor próprio. Ter a sua própria forma de empreender permite que ciclos de dependências físicas e emocionais sejam rompidos, devolvendo a esperança de um futuro melhor.
Crescimento do empreendedorismo feminino — No Maranhão, segundo dados obtidos por meio do Boletim Elas, pesquisa realizada anualmente pelo Painel Estatístico da Junta Comercial do Maranhão (JUCEMA), cerca de 40,55% das empresas formais no estado são comandadas exclusivamente por mulheres. A porcentagem equivale ao número exato de 164.489 mulheres com CNPJ no Maranhão. Desse total, cerca de 76.212 correspondem às mulheres que são microempreendedoras individuais e ganham até R$81 mil/ano.
Além disso, as estatísticas recentes (2024 e 2025), baseados na análise da PNAD Contínua (IBGE) do 4ºTri/2024 e dados da Receita Federal pelo Sebrae, indicam que a maioria dessas mulheres empreendedoras (cerca de 87%) continuam atuando sozinhas em seus empreendimentos, operando em diversos setores com destaque para vestuário, beleza, acessórios, calçados, culinária, comércio e até construção civil. A PNAD ainda mostra que, as empreendedoras de cor/raça negra no Maranhão, correspondem a cerca de 39,92% (66.220 mulheres), são donas de casa e possuem o nível de escolaridade de até o ensino médio completo.
Enquanto aumentam as denúncias de violência, incluindo feminicídio, também está em crescimento contínuo o protagonismo feminino no empreendedorismo. Essa concentração em empreendimentos menores coincide com outro aspecto social relevante: historicamente, são justamente as mulheres em maior vulnerabilidade econômica, especialmente as mulheres negras que aparecem com maior frequência entre as vítimas de violência e nas estatísticas de denúncias. Ainda que muitos boletins não tratem de raça, a predominância feminina em setores como comércio (71.406 empreendedoras) e serviços (58.131), áreas geralmente marcadas por baixa renda média e alta informalidade, reforça uma interseção conhecida: mulheres que enfrentam violência também são as que mais recorrem ao empreendedorismo de sobrevivência.
Mesmo com a dura realidade enfrentada por mulheres em estado de vulnerabilidade crescendo no estado, o empreendedorismo feminino está ajudando essas guerreiras a se libertar de situações desagradáveis e na maioria das vezes, desumanas.
Por um lado, existe um grupo de mulheres que estão em situações de fragilidades e que necessitam de atenção. Mas do outro lado, existem um público feminino que se reúne semanalmente com um só propósito: transformar a vida dessas mulheres que estão em situação de vulnerabilidade, através do incentivo ao empreendedorismo. É assim que a ONG Mulheres Empreendedoras – Instituto Amor Verdadeiro trabalha diariamente para apresentar o mercado do empreendedorismo para a população feminina que se encontra em situação de vulnerabilidade na sociedade.
Fundado em 2018, o Instituto Amor Verdadeiro atua na promoção do acolhimento e do fortalecimento de mães atípicas, mulheres empreendedoras e famílias em situação de vulnerabilidade. A organização busca oferecer suporte emocional, capacitação profissional e oportunidades que contribuam para a autonomia e dignidade de suas participantes.
Idealizado por Sheila Cristina, o projeto surgiu no meio de uma situação pessoal conturbada em sua vida.Sendo moradora de rua e usuária de drogas, Sheila já esteve em situação de vulnerabilidade e vivia de forma desumana em São Luís. Em 2018, após o seu processo de transformação pessoal, ela decidiu criar um projeto social para ajudar outras mulheres a se reerguerem, assim como ela.
Ao longo dos anos, o Instituto desenvolveu projetos voltados a empreendedoras de diferentes áreas, como manicure, panificação, produção de cremosinho e outros pequenos negócios. Entre as principais ações estão cursos de doces e salgados, oficinas práticas e formações que potencializam as habilidades individuais e ampliam as possibilidades de geração de renda
O acompanhamento inclui também apoio a mulheres que enfrentam situações delicadas, como casos de violência doméstica. Um exemplo é a história de Darlene, que, mesmo após vivenciar agressões, segue recebendo suporte contínuo da equipe do Instituto. A entidade reforça a importância do acolhimento sem julgamentos e da construção gradual de um ambiente seguro e fortalecido para essas mulheres
As atividades não seguem um calendário fixo, mas ocorrem de forma periódica ao longo do ano, com palestras, momentos formativos e ações temáticas. No fim de cada mês, o Instituto realiza um almoço especial com mães atípicas, seguido de uma roda de conversa conduzida por psicólogas e profissionais da área da autoestima e saúde emocional.
A instituição também participa de campanhas anuais de conscientização, como Janeiro Branco, Março Lilás e Agosto Lilás, reforçando o compromisso com a saúde mental, o combate à violência contra a mulher e a promoção do bem-estar feminino.
Além das ações presenciais, o Instituto mantém um grupo e uma linha de transmissão onde diariamente são compartilhadas meditações, mensagens de paz, alertas e conteúdos de apoio emocional. O objetivo é garantir que o suporte chegue a todas, mesmo à distância.
Com essa atuação contínua, o Instituto Amor Verdadeiro se consolidou como um espaço de acolhimento e transformação social, onde cada mulher é escutada, respeitada e incentivada a reescrever sua própria história com coragem e amor.
Com isso se percebe que, apesar do avanço da pobreza extrema no estado, muitas mulheres têm encontrado no mercado de trabalho um caminho para transformar essa realidade. O empreendedorismo surge como uma alternativa capaz de reduzir a vulnerabilidade social e econômica, fortalecendo não apenas a autonomia financeira, mas também a autoestima. Em uma sociedade que segue pressionando os mais vulneráveis, essas iniciativas representam resistência, reconstrução e a busca por novas oportunidades.
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