Pesquisa Pop-Brasil, conduzida pelo Hospital Moinhos de Vento em parceria com o Ministério da Saúde, revela que a detecção dos quatro principais tipos de papilomavírus humano cobertos pelo imunizante caiu de 14,98% para 7,95% entre jovens de 16 a 25 anos. Apesar do avanço, cobertura vacinal entre meninos é de apenas 31,1%, muito abaixo dos 90% recomendados.
Dados inéditos do maior estudo sobre eficácia da vacina contra o HPV já realizado na América Latina mostram uma redução expressiva na prevalência dos tipos virais incluídos no imunizante oferecido pelo Sistema Único de Saúde. A pesquisa Pop-Brasil, conduzida pelo Hospital Moinhos de Vento em parceria com o Ministério da Saúde, comparou amostras coletadas em dois períodos distintos e encontrou uma queda de quase 50% na infecção pelos quatro subtipos oncogênicos cobertos pela vacina.
Na primeira fase do estudo, realizada entre 2016 e 2017, foram analisadas amostras de 6.388 participantes não vacinados de ambos os sexos. Na ocasião, 14,98% dos jovens de 16 a 25 anos já haviam sido infectados por pelo menos um dos quatro tipos de HPV contemplados pelo imunizante. Já na segunda etapa, com mais de 10 mil participantes vacinados e não vacinados, entre 2020 e 2023, essa proporção caiu para 7,95%. As amostras foram coletadas em unidades de saúde espalhadas pelo país.
A escolha da faixa etária, conforme explica a médica epidemiologista e líder da pesquisa Eliana Wendland, deve-se ao fato de ser o grupo com maior prevalência do vírus, justamente por marcar o início da atividade sexual. Além disso, todos os indivíduos nessa idade já deveriam ter sido vacinados, segundo o calendário do Programa Nacional de Imunizações.
No entanto, a cobertura vacinal observada ficou aquém do esperado. Entre as meninas e mulheres participantes, apenas 61,8% estavam imunizadas. Entre os meninos e homens, o percentual foi ainda menor, de 31,1%. A taxa ideal preconizada para se obter proteção coletiva é de 90%.
Apesar da cobertura insuficiente, a vacina demonstrou forte impacto individual. Entre as meninas e mulheres, a prevalência dos tipos virais cobertos pelo imunizante era de 15,6% na primeira fase, quando só havia não vacinados. Na segunda etapa, entre as participantes vacinadas, a detecção caiu para 3,1%. Entre os homens vacinados, a prevalência desses subtipos recuou de 13,8% para 4,6%.
A pesquisa também identificou sinais de efeito rebanho, especialmente entre as meninas não vacinadas. Na segunda fase do estudo, a prevalência dos quatro tipos de HPV combatidos pela vacina nesse grupo foi de 10,5%, inferior aos índices registrados antes da campanha de imunização. Esse fenômeno ocorre quando a vacinação em altas coberturas reduz a circulação do agente infeccioso, protegendo indiretamente quem não foi imunizado.
Entre os homens não vacinados, porém, não houve mudança estatisticamente significativa na prevalência entre as duas fases da pesquisa. A prévia do artigo, que será publicado na revista científica npj Vaccines, atribui o resultado à baixa adesão à vacinação entre esse público. O texto destaca que os meninos costumam receber menos incentivo à imunização do que as meninas, em parte porque o HPV ainda é amplamente percebido como uma causa predominantemente do câncer do colo do útero, o que não corresponde à totalidade dos riscos.
Outro dado que reforça a eficácia do imunizante é a comparação com a prevalência geral de HPV, que considera todos os subtipos existentes, e não apenas os cobertos pela vacina. Entre as duas fases do estudo, essa taxa subiu de 46,7% para 56,6%, movimento oposto ao observado entre os quatro tipos-alvo da vacinação, que caíram.
A pesquisa também trouxe evidências favoráveis ao esquema atual de dose única oferecido pelo SUS. Os pesquisadores não encontraram diferença significativa na prevalência do vírus entre pessoas vacinadas com uma, duas ou três doses, o que sustenta a mudança no calendário adotada em 2024.
A campanha de vacinação contra o HPV no Brasil começou em 2014, inicialmente voltada apenas para meninas. A partir de 2017, os meninos passaram a ser incluídos, com ajustes na faixa etária ao longo dos anos. Atualmente, o público-alvo são crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, além de grupos adultos vulneráveis, como imunossuprimidos, vítimas de violência sexual, usuários de profilaxia pré-exposição (PrEP) e pessoas com histórico de lesões precursoras no colo do útero.
O papilomavírus humano é reconhecido como o principal agente causador do câncer do colo do útero, mas também está associado a tumores de pênis, ânus e orofaringe. Embora nem todos os subtipos tenham potencial oncogênico, a vacina disponível na rede pública protege justamente contra os quatro tipos mais frequentemente relacionados a esses casos.
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