O cenário macroeconômico brasileiro tem imposto barreiras cada vez maiores para micro e pequenos empreendedores que buscam financiamento. Com a taxa Selic operando próximo dos 13% ao ano e a inflação persistente, o custo de captação das instituições financeiras subiu, repassando juros mais altos e critérios mais rígidos ao tomador final. O reflexo aparece nos números da inadimplência.
Levantamento do Serasa Experian registrou, na virada de 2025 para 2026, um recorde de 8,9 milhões de CNPJs com dívidas em atraso no país. Desse total, 8,5 milhões são de micro e pequenas empresas, que acumulam mais de R$ 210 bilhões em débitos negativados.
A dificuldade para financiar estoques, honrar compromissos com fornecedores e manter o caixa do dia a dia tem levado muitos donos de negócios a decisões financeiras sem planejamento, o que, segundo especialistas, agrava o endividamento e compromete a própria operação.
Rita de Cassia Carolino, coordenadora da Pós-graduação em Administração Financeira da EAD UniCesumar, afirma que a falta de domínio sobre métricas básicas de finanças é uma das principais causas do superendividamento empresarial. Ela cita erros recorrentes, como a avaliação apenas do valor da parcela mensal, sem considerar o Custo Efetivo Total (CET), e o uso de linhas de curto prazo para projetos de longo retorno. Outro equívoco comum, segundo ela, é buscar empréstimo somente quando a situação do negócio já é crítica.
“Uma parcela significativa da receita passa a ser destinada ao pagamento de juros, comprometendo a capacidade produtiva e a operação da empresa”, diz a coordenadora.
Diferença entre crédito alavancador e crédito sufocante
O mercado financeiro classifica o crédito em duas categorias, com base no retorno que o recurso captado é capaz de gerar. Para ser viável, o financiamento precisa produzir um ganho econômico superior ao seu custo de contratação.
Carolino explica que o crédito é alavancador quando financia investimentos produtivos, aumenta a receita e tem prazo compatível com o retorno esperado. “Ele se paga com os resultados da própria operação”, resume. Já o crédito sufocante, na visão da especialista, surge quando o recurso é usado para cobrir déficits permanentes do negócio ou quando a taxa de juros supera a rentabilidade da empresa, acelerando o processo de insolvência.
Bancos e fintechs em busca de um crédito mais consciente
A responsabilidade pela redução da inadimplência também recai sobre as instituições que ofertam crédito. Para a coordenadora da UniCesumar, a simples disponibilização de recursos não é suficiente para resolver o problema estrutural.
Ela defende que a oferta de crédito consciente exige avaliação da real capacidade de pagamento do cliente, e não apenas do volume de capital disponível para empréstimo. Na prática, sugere a adoção de diagnósticos financeiros prévios à concessão, ferramentas digitais de acompanhamento de caixa e alertas automáticos sobre riscos de endividamento.
Carolino destaca ainda que fintechs e bancos tradicionais podem atuar de forma complementar. As fintechs têm vantagem no uso intensivo de dados e na agilidade, enquanto os grandes bancos contam com capacidade de funding e capilaridade.
Para as micro e pequenas empresas, o acesso ao crédito deve ser encarado como ferramenta estratégica de desenvolvimento, e não como mecanismo de sobrevivência contínua. A especialista reforça que a educação financeira, aliada à orientação responsável por parte das instituições, é a base para que os pequenos negócios consigam sustentar suas margens e evitar o sufocamento provocado pelos juros.
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