O Brasil encerrou 2025 com o maior número de mortes causadas por intervenção policial já registrado desde que a Rede de Observatórios da Segurança passou a monitorar o fenômeno. Foram 4.330 vítimas em nove estados, um aumento de 6,4% em relação ao ano anterior. Entre os casos com raça ou cor identificada, 86,3% das vítimas eram negras, o que corresponde a 3.104 pessoas. Os dados integram a sétima edição do relatório Pele Alvo, divulgado pela Rede.
Os estados monitorados são Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo. Em quatro deles, o número de mortes foi o maior desde 2019: Ceará (200), Maranhão (142), Pará (632) e São Paulo (834).
A juventude negra segue como o grupo mais atingido. Do total de vítimas, 64,8% tinham até 29 anos, o que corresponde a 2.804 mortes. Entre crianças e adolescentes, o relatório contabiliza 310 vítimas. Em dois casos, as vítimas tinham entre zero e 11 anos.
Maranhão com o maior crescimento
O Maranhão registrou o crescimento mais expressivo entre os estados monitorados: 86,8% em relação a 2024. As 142 mortes de 2025 representam o maior número da série histórica do estado, que acumulou 628 óbitos em sete anos de monitoramento. O relatório aponta como hipótese a interiorização de facções originárias do Rio de Janeiro e de São Paulo, que passaram a se articular com grupos locais, como o Bonde dos 40, na disputa por rotas de escoamento de drogas. Quarenta por cento das mortes aconteceram em 35 municípios, alguns com menos de 15 mil habitantes.
O estado também apresenta um dos piores índices de transparência racial: 54,9% dos registros de mortes não trazem informação sobre raça ou cor da vítima. A escolaridade está ausente em 97,2% dos casos, e a profissão, em 96,5%.
Bahia concentra quase nove mil mortes em sete anos
A Bahia segue como o estado com maior número absoluto de mortes em todo o período monitorado: 8.743 vítimas em sete anos, mais do que os outros seis estados somados. Em 2025, foram 1.570 mortes, pelo quinto ano consecutivo acima de mil. A taxa de 11 mortes por 100 mil habitantes é a mais alta entre os estados monitorados, mais que o dobro da média geral, que é de 4,6. Entre as vítimas com raça identificada, 93,9% eram negras. De 365 dias do ano, 346 registraram ao menos uma morte.
Rio e a maior chacina da história do país
O Rio de Janeiro registrou aumento de 13,8% nas mortes por intervenção policial em relação a 2024, totalizando 800 vítimas. O estado foi palco, em outubro de 2025, da maior chacina da história do Brasil: a Operação Contenção, realizada nos Complexos da Penha e do Alemão, resultou em 115 mortes, classificadas oficialmente como “narcoterroristas” pela Secretaria de Polícia Civil. O monitoramento acontece sob vigência da ADPF 635, que coloca o Supremo Tribunal Federal como instância fiscalizadora das operações policiais no estado. A capital concentrou 56,3% das vítimas.
São Paulo e a câmera que se apaga
São Paulo registrou 834 mortes, o maior número de sua série histórica e o segundo maior volume absoluto entre os estados monitorados. O relatório chama atenção para a oscilação dos índices relacionada ao programa de câmeras corporais Olho Vivo: após atingir o pico de 814 mortes em 2020, o estado chegou a 419 em 2022 com o uso mais sistemático das câmeras. A partir de 2023, com a mudança de gestão estadual, os números voltaram a crescer. Em 2025, atingiram o maior patamar já registrado. O relatório aponta que as câmeras do programa são frequentemente interrompidas em momentos decisivos, contrariando decisão do STF que determinou gravação ininterrupta.
Pará, COP30 e a contradição da segurança
O Pará sediou a COP30 em Belém em 2025, com o governo estadual projetando a imagem de uma capital voltada à sustentabilidade. No entanto, o estado registrou 632 mortes por intervenção policial, o maior número de sua série histórica. Belém, vitrine da conferência climática, concentrou 99 mortes, o maior número absoluto do estado. A taxa de mortes de pessoas negras foi a segunda mais alta entre os estados monitorados: oito por 100 mil habitantes, atrás apenas da Bahia.
Pernambuco e a invisibilidade das trajetórias
Pernambuco registrou aumento de 30,9% nas mortes por intervenção policial em 2025. O estado é o único a informar raça ou cor em 100% dos registros, o que torna o dado ainda mais contundente: 94,4% das vítimas eram negras. Ao mesmo tempo, 78,7% das vítimas não tiveram a profissão informada nos registros oficiais. O Recife concentrou 12,4% das mortes no estado.
O que os dados escondem
O relatório dedica atenção especial ao problema da subnotificação racial. Ceará e Maranhão são apontados como casos emblemáticos: no Ceará, 57,5% das mortes não têm raça ou cor registrada; no Maranhão, esse índice é de 54,9%. O relatório demonstra que, à medida que o preenchimento dos dados melhora, a proporção de negros entre as vítimas aumenta, o que indica que a ausência de informação funciona como um mecanismo de ocultamento do recorte racial da letalidade. No Maranhão, a proporção de negros mortos cresceu 22 pontos percentuais conforme os dados foram sendo mais bem preenchidos; no Ceará, o aumento foi de aproximadamente oito pontos.
A média que condena
Na média dos estados monitorados, pessoas negras têm quatro vezes mais chances de serem mortas pela polícia do que pessoas brancas. Em Pernambuco, essa proporção chega a 11 vezes. No Rio de Janeiro, a seis. O Amazonas apresentou o maior percentual de vítimas negras entre os estados: 96% dos mortos com raça identificada eram negros, um aumento de seis pontos percentuais em relação ao ano anterior.
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